Novembro 14, 2019
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Sicário – Guerra de Cartéis: agora os terroristas são os emigrantes ilegais

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Achas que a mudança é o objetivo?, questiona a certa altura Catherine Keener, no papel e agente governamental, ao operacional da CIA, uma vez mais interpretado por Josh Brolin, antes de rematar. É que andas a fazer isso há muito tempo. Na verdade, Sicário – Guerra de Cartéis é, de facto, mais do mesmo. Ou melhor, ‘menos’ do mesmo, já que este está alguns furos abaixo do filme original que Denis Villeneuve levou à competição de Cannes em 2015.

Quando se encara a presença do italiano Stefano Sollima, tão identificado com histórias de mafiosas, desde logo pela assinatura que colocou em Suburra e na série Gomorra, seria natural esperar outra densidade que dirigir uma história sem alma e que cede à lógica das sequelas. Ficamos assim órfãos de personagens que deixam marca, de secundários multidimensionais, não totalmente isentos de alma. Em vez disso, abunda a réplica militarona, das vozes de comando irritantes, saídas da narrativa alinhavada por Taylor Sheridan, desta vez a navegar na água do mesmo rio. Ele que foi responsável pela task force que assumiu a guerra contra o tráfico de droga em plena Badlands.

Só que em vez da viscosidade de um guião em que se sente a força da terra e dos homens que a pisam, e que deu os melhores frutos em Hell or High Water – Custe o Que Custar!, na história que desenhou para o belo filme de David Mackenzie em que se respiram apegos e crispações próximas, embarcamos agora numa réplica dominada pelos cartéis de emigração ilegal. Um flagelo que o POTUS (quem não sabe que Google o acrónimo) em vigor, e que precisa de salvar a cara, se apressa a comparar e a combater como casos de terrorismo, mesmo que não se mencionem aqui as crianças separadas dos pais. E nem precisávamos de ver emigrantes a fazerem-se passar por mártires para que essa ideia fosse apreendida e choque de frente com a sofisticada e altamente profissionalizada máquina de guerra americana preparada para defender a Pátria.

É isso que nos mostra uma sequência inicial apoiada no peso dos helicópteros, da trama militar, das câmaras e goggles de visão noturna, com a ideia ousada de transformar emigrantes ilegais em desesperados que preferem a qualificação de mártir em vez de serem deportados para uma terra seca de oportunidades. Pelo meio, junta-se um peão à narrativa, na filha de um narco que serve de isco para desencadear uma guerra entre cartéis que consumará o plano americano de acatar com essa raça de traficantes de gente – os polos (ou frangos) como lhes chamam. Claro que nesta reciclagem temos também Benicio del Toro, e um Benicio igualmente reciclado, ou seja, emagrecido com menos vários quilos e que parece ter ganho a sua franchise. Mesmo sem chegar ao nível exibido em Tráfico – Ninguém Sai Ileso de Steven Soderbergh.

Diz que esta Guerra de Cartéis foi aprovada um mês após o lançamento de Sicário – Infiltrado. Percebe-se a decisão que uma vez mais procura dividendos em material pré-existente para render em sequelas ou possíveis franquias como forma de impor o peso de uma indústria que aposta antes neste lado facilitado do que no risco de criar algo de novo. Mesmo com o apelo natural do tema das relações tensas na fronteira entre o México e os EUA, tão quente nos dias que correm, generaliza-se com a banalidade de uma história empenhada num cinema belicista que mais parece ter sido patrocinado pelas forças armadas. E que fica com as portas escancaradas para a franchise.

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