Agosto 15, 2018

Esplendor: Naomi Kawase propõe uma janela visual e sensorial sobre o mundo das imagens em movimento

Um filme tocante sobre a criação de imagens, o impalpável ou mesmo uma reflexão inesperada sobre a análise dos filmes. Esta nova entrega da japonesa Naomi Kawase esteve a concurso em Cannes de 2017 e chega agora às nossas salas como uma janela janela visual e sensorial sobre essa coisa estranha chamada imagens em movimento.

Assim de repente, não nos lembramos de um realizador que convoque para o cinema de forma tão conseguida a dimensão mais sensorial das imagens. Desde logo, por assinalar o diálogo e os momentos mágicos desses quadros se esvanecem, mais até do que aqueles que emergem para a luz. Ora é precisamente essa relação e afetos que se estabelece entre Misako (Ayame Misaki), uma tradutora narradora de legendas com conteúdo imagético para invisuais, e o fotógrafo famoso Masaya Nakamori (Masatoshi Nagase), ao longo do processo em que começa a perder a visão de forma irreversível.

A cineasta de 49 anos que nos foi habituando a um cinema poderoso e sensorial sugere-nos agora esta redescoberta do poder das imagens e do cinema como meio de comunicação. Dessa forma como que inventa uma nova hipótese de poesia visual conferida através do feedback que espetadores cegos vão dando à narrativa descritiva que Misako vai produzindo, como forma de aperfeiçoar o resultado definitivo desse trabalho. É ao ser confrontada com o tom mais acertivo do angustiado Nakamori que terá de lidar de forma mais radical com essa transição da luz e da sombra pela cor dos sons.

De forma voluntária ou não, o que Naomi Kawase acaba por estabelecer é também um diálogo muito interessante entre o que sucede com a criação cinematográfica, a arte e até mesmo com o próprio papel da opinião crítica do espetador. No fundo, uma curiosa forma poética de abrir a tal janela do cinema, e já agora da fotografia também.

Esplendor foi um dos filmes mais fortes que vimos na Selecção Oficial do ano passado em Cannes, pelo menos aquele que ousou explorar de forma mais profunda os horizontes do cinema. Pena é que essa necessidade narrativa tenha conduzido a trama a um final que desbarata parte do potencial recolhido, cedendo ao mais do que previsível romance e às imagens, seguramente belas, da fotografia de Arata Dodo, embora já nos limites da beleza estética.

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