Agosto 17, 2018

Cannes: E a SexPalm vai para… ? Os candidatos são ‘Rafiki’, ‘Sextape’, ‘Plaire, Aimer et Courrir Vite’ e ‘Um Couteau Dans le Coeur’

Rafiki

Sextape/A Genoux les Gars

Plaire, Aimer et Courrir Vite

Knife + Heart/Un Couteau Dans le Coeur

Sim, Cannes esteve bem de amores, muito obrigado. Com mais ou menos sexo, seja ele gay ou lésbico, assédio ou abuso. Enfim, os temas quentes do momento. Nesse aspeto, Thierry Frémaux e Pierre Lescure haviam avisado, durante a conferência de divulgação do programa da 71ª edição do festival de Cannes, que o cinema de causas estaria bem presente. Não mentiram.

E que melhor causa que o cinema empenhado em aflorar, escalpelizar, defender e proteger a intimidade ou celebrar o sexo da forma mais aberta possível? Algo que se torna ainda mais urgente, sobretudo numa altura em que foi atualizada uma consciência sexual, em que se dignificou a condição feminina, mas também que muitos atos viraram tabu ou se politizaram debaixo do conceito não totalmente definido do assédio. Mais importante será seguramente o debate a partir de projetos que tenham abordado estes temas de forma particularmente interessante nas diversas secções do Festival.

Rafiki

Ainda a procissão de Cannes ia no adro e já tínhamos um grupinho de propostas espevitadas e a chamarem as coisas pelos nomes. Seja a proibitiva relação lésbica de Rafiki, o tal filme queniano, o primeiro de sempre em Cannes, exibido na secção Un Certain Regard, com o crivo que o impede de ser exibido naquele país africano onde o sexo não se pode sequer ser sugerido no ecrã. Quebrou a barreira a jovem realizadora Wanuri Kahiu com este episódio de romance lésbico Nairobi, precisamente numa cidade em que esse tipo de relacionamento é considerado crime e conta com um ódio social. Naturais por isso os comentários homofóbicos que relegam as relações íntimas entre pessoas do mesmo sexo, como algo impróprio e brutal e merecedor de violência.

Só é pena que esta deriva corajosa, inspirada numa história verídica, se tenha apresentado rodeada de todos os clichés que empunham a bandeira arco-íris. Compreende-se somente pela necessidade de afirmar um filme-bandeira numa sociedade que não está preparada para tais ousadias. Pena é que o seu interesse acabe por sair comprometido pela pouco natural (ou credível) apresentação de personagens que nunca abandonam os estereótipos. Como se presas a índices de produção mais interessados em passar a mensagem Gay is nice, embora sem sair do mero panfleto.

Sextape/A Genoux Les Gars

Apesar de partir de um ponto de vista oposto, o bastante mais ousado Sextape, também na seleção da secção Un Certain Regard, arriscou uma aproximação à manipulação sexual vista no interior da adolescência francesa. Seguramente, uma fita destinada a provocar reações bem diversas, desde logo pela forma como se reage diante a denúncia de comportamentos homofóbicos, abusivos e exploratórios. O cineasta francês Antoine Desrosières serviu-se da improvisação para gerir tudo isso embora sem sair no interior dos grupos.

É esse sexo feito manipulação adolescente e ostensiva que vemos Sextape (no original francês A Genoux les Gars, como que a dizer, vamos a ajoelhar), em que a chantagem de uma felação serve para uma comédia muito provocadora sobre a geração redes sociais que trata o sexo por tu. Filme perigoso, em tempos de reinado #MeToo, por descrever o comportamento e deixa apenas para o final uma solução à altura. Ainda assim, interessante o atrevimento em cinema simples e direto.

O que tivemos ainda de cinema mais palpitante? Talvez a SexPalm (prémio que inventamos como resposta ao DogPalm) do maior filme de sexo e amor do ano vá mesmo para Plaire, Aimer et Courir Vite (Dar prazer, amar e correr depressa?), de Christopher Honoré, pela profunda e cativante viagem ao fundo do amor voraz queer em plena década de 90. Naturalmente, um parceiro inevitável de 120 Batidas Por Minuto, de Robin Campillo – embora Honoré o tenha concebido sem saber da sua existência. Aqui não se viaja para o interior da Act Up, embora a organização seja referida, pois o que mais interessa a Honoré é celebrar essa entrega de corpos a um romance livre. Bem o cineasta a afirmar o conteúdo que melhor espelhou o romance do mesmo sexo. E que sugeriu mesmo um aspeto muito pouco conhecido, como a classificação do tipo de homens, de acordo com uma espécie de casta de perfil estético.

Mais adiante no festival, o provocador Yann Gonzalez  introduziu o género nesta discussão, com pouco compreendido Un Couteau Dans le Coeur. Neste caso, o género série B, com Vanessa Paradis bom regresso no papel de realizadora de filmes porno chic, no final dos anos 70, que acaba envolvida numa trama policial que pede licença autoral a Antonioni e a De Palma.

O mais interessante foi mesmo a forma como Gonzalez se apropriou do sentido de época, num exercício tão cuidado que nos ofereceu uma aproximação a um estilo fake trash. Proposta interessante, mesmo que tenha deixado muitos críticos de nariz torcido.

 

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