Outubro 16, 2018

Afinal a mensagem na garrafa dizia Palma de Ouro para Shoplifters, do japonês Kore-eda

Hirozako Kore-eda, Shoplifters, Palma de Ouro

No ano em que o festival ergueu a bandeira das causas, das mulheres, das crianças, das vozes poderosas, mas invisíveis, como descreveu na abertura da cerimónia a Presidente do Júri Oficial Cate Blanchett, o japonês Kore-Eda venceu a Palma de Ouro com os crimes e escapadelas em família do filme traquina Shoplifters.

Foi assim o nosso 20º festival de Cannes. Em 1999, os manos Dardenne tiravam também o favoritismo a Pedro Almodóvar, com Tudo Sobre a Minha Mãe. Hoje foi o japonês que ‘roubou’ o prémio à hipótese de termos pela segunda vez uma realizadora com Palma de Ouro, depois de Jane Campion, com O Piano, em 1993.

Shoplifters

Seguramente, uma surpresa, talvez para abafar o favoritismo doce em redor de Nadine Labaki e de Capharnaum, pensemos numa variante de O Garoto de Charlot, para termos uma ideia, mas que se ficou pelo Prémio Especial do Júri, talvez o resultado das negociações complexas de um júri numeroso. Não foi seguramente o melhor filme da Seleção Oficial, nem sequer o melhor do realizador japonês.

Capharnaum

O pódio completou-se com o Grande Prémio para o grito contra o racismo de Spike Lee, em BlakKklansman, o nosso preferido para o prémio máximo; Godard foi o penetra e abriu o seu Livre D’Image, combinou imagens, sons, eventos do mundo e do cinema, como se fosse um autêntico DJ audiovisual numa criação febril. Obrigatório por isso o Prémio Especial do Júri. Tal como o de realização para o polaco Pawel Pawlikowski, pelo magnífico e visualmente perfeito Cold War, sobre uma belíssima história de amor que percorre duas décadas do período da guerra fria na Europa.

BlackKklansman

Há muito para dizer dos vencedores dos prémios de interpretação. O italiano pequenino e tratador de cães em Dogman, de Matteo Garrone, no seu regresso ao realismo violento de Gomorra, mas sobretudo a entrega total de Samal Yeslamova, no magnífico e angustiante Ayka, de Sergei Dvortsevoy. Filmes que teremos mesmo de ver e sofrer com eles.

Ayka

Homenagem aos dois cineastas que não puderam estar presentes, ambos em prisão domiciliária nos seus países, o russo Kirill Sebrenikov, que trouxe Leto, a colagem pop evocativa de uma banda que tentou fazer a new wave em Leninegrado, e o iraniano Jafar Panahi, com a sua auscultação das tradições da sociedade patriarcal em que as mulheres pouco contam, dada por 3 Faces.  embora apenas com prémio de guião para o segundo, recebido pela co-argumentista Saeivar Panahi. A italiana Alice Rohrwacher receberia igualmente o mesmo prémio, por Lazzaro Felice.

3 Faces

Girl recebeu ainda a Câmara de Ouro, para a primeira longa metragem, numa categoria que integrava também Gabriel Abrantes com Diamantino. Bem calhada para o filme sobre um bailarino de 16 anos, que a vontade de mudar de sexo. O filma cativa-nos por evitar todos os estereotipos normalmente associados a este tipo de perosnagens.

Girl

Foi um palmarés justo. Foi sobretudo um palmarés que não é atribuído por jornalistas ou críticos de cinema, portanto a optar por refletir questões talvez que superem essa dimensão puramente cinéfila. Nesse sentido, foi um palmarés justo e adequado.

No final, houve música de Sting que ao cantar Message in a Bottle no topo das escadarias e passadeira vermelha que dão acesso ao Palais dos Festivais, parecia querer dizer que a mensagem que Canes envia ao mundo é de um cinema ativista, de direitos humanos e de denúncia. Como aquela que Asia Argento foz do púlpito revelando o abuso que sofrera em Cannes e o dedo que apontou para o público, como que a interpelar a consciência de alguns dos presentes. Ou como Spike Lee sem papas na língua atirou na conferência de imprensa quando recordou os recentes episódios de xenofobia no seu país com um sonoro F*** you, Trump!

 

Em direto da conferência de imprensa com as declarações dos vencedores:

Hirokazo Kore-eda (Palma de Ouro, Shoplifters) Continuarei a fazer filmes sobre a família, mesmo que tenha 60 anos. Nunca dei um guião aos miúdos e nunca preparei uma cena. Incluí coisas das minha infância, Tinha os meus tesouros e observava os adultos desse ponto de vista. Mas nunca roubei nada… Será que podemos ser pais sem ter filhos verdadeiros?

Spike Lee (Prémio Especial do Júri, BlackKlklansman) – Há muitas mudanças a acontecer nos EUA, mas esta Administração tem feito com que o relógio do tempo ande muito para trás.

Nadine Labaki (Prémio Especial do Júri, Capharnaum) Sinto-me culpada de estar aqui feliz, no glamour de Cannes, não posso deixar de sentir isso. Foram seis meses que mudaram a minha vida, sou hoje uma pessoa diferente.   

Jean-Luc Godard (Prémio Especial, Livre D’Image– O tratamento com ele (Jean-Luc Godard) é muito simples. Não filosofamos sobre o mundo a toda a hora. Não é preciso compreender tudo, mas receber aquilo que ele nos dá. Ele trabalha em casa com cassetes VHS (Fabrice Aragno, diretor de fotografia)

Pawel Pawlihowski (Melhor Realização, Cold War) – Filmo com muita liberdade, mas quando estou no set faço muitas alterações, juntamente com o meu diretor de fotografia.

Jafar Panahi e Nader Saeivar (Melhor Guião 3 FacesTivemos esperança de que ele pudesse vir, mas no final não pode. No irão os seus filmes são muito apreciados e tem influenciado jovens realizadores.

Alicie Rohrwacher (Melhor Guião, Lazzaro Felice– Gosto de filmar as histórias simples, de inocência, de simplicidade. O cinema que me toca tem a ver com a memória, tento procurar esse olhar numa viagem no tempo.

Samal Yeslyamova (Prémio de interpretação feminino, Ayka) – Faço o que o realizador me pede. Criamos uma motivação para cada cena. Assim, quando a câmara chega já não sinto a sua presença.

Marcello Fonte (Interpretação Masculina, DogmanOuvia aplausos na minha infância porque me sentia só, pois cresci na solidão. Hoje quando os ouvi de novo pensei no meus pais que me deram vida.

Lukas Dhont (Camâra de Ouro, Girl) – O cinema e a representação são uma arte de empatia. Quería alguém que conseguisse representar, dançar e representar uma pessoa que desejasse mudar de sexo. Encontrámos isso em Victor Polster.

 

Palmarés 71º Festival de Cannes – 2018

Palma de Ouro – Shoplifters, Hirokazo Kore-eda

Grande Prémio – BlakKklansman, de Spike Lee

Prémio Especial do Júri – Capharnaum, de Nadine Labaki

Prémio Especial – Jean-Luc Godard (Livre D’Image)

Prémio Interpretação Masculino – Marcello Fonte (Dogman)

Prémio Melhor Realização – Pavel Pawlikowski (Cold War)

Prémio de interpretação feminino – Samal Yeslyamova (Ayka)

Prémio de Melhor Guião – Alicie Rohrwacher (Lazzaro Felice) ex aequo Nader Saevar e Jafar Panahi (3 Faces)

Camâra de Ouro – Girl, Lukas Dhont

Sobre Paulo Portugal 673 artigos
Insider Cinema, festivais, entrevistas e críticas. E algo mais.

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.


*


Google Analytics