Agosto 15, 2018

Entre Ayka e Cafarnaum: Palmas para os excluídos de Nadine Labaki e Sergei Dvortsevoy

Ayka

Vinte anos depois de Rosetta, dos manos Dardenne, ter ganho a Palma de Ouro, vimos um esboço tímido de outra Rosetta em Ayka, do realizador cazak, Sergei Dvortsevoy, embora esta mulher quirguize que abandona o filho na maternidade e corre todo o filme a tentar resolver a sua vida encarra uma dimensão bem mais humana e universal. Mesmo sem ganhar a Palma de Ouro, que ano deverá ir para a libanesa Nadine Labaki pelo drama social Capharnaum, já nos deixou a sua marca.

Sim, o melhor terá mesmo ficado para o final. Isto num festival que não precisou de estrelas para afirmar um conjunto de filmes bastante coerente que beliscaram diversos temas de referência e atualidade. Talvez por isso, seja de prever um júri capaz de ignorar o tocante Cafarnaum, de Nadine Labaki, em que crianças se substituem aos adultos para alertar pela sua luta pela sobrevivênvia.

Apesar da proximidade e humanidade entre Capharnaum Ayka, já que quase podemos encará-los como negativo fílmico um do outro, na sua disponibilidade de olhar os desafortunados, aqueles forçados a decisões limite que desafiam a nossa compreensão, ainda assim distanciam-se nas opções estéticas para lá chegar. Uma mais adocicada e profundamente feminina proposta de Labaki assenta como uma luva no modelo deste ano da Palma de Ouro, seguramente sem espaço para a tortuosa viagem aos limites da condição humana da deriva de Dvortsevoy, seguramente pouco adequada a todos os públicos.

Próxima dos Dardenne, e até de Gaspar Noé, a câmara orgânica do russo Dvortsevoy, nascido no Cazaquistão, obriga-nos a uma intimidade que não desejamos com a tensão e frenesim da jovem Ayka que escapa da maternidade, ainda sem parar a sua hemnorragia, para tentar sobreviver numa metrópole moscovida gelada e dominada pelos inevitáveis jogos de corrupção e gangs agiotas, completamente indiferente à sorte daqueles procuram sobreviver antes de começar a viver.

Bem mais serena a observação de Labaki das crianças nas ruas de Beirtute, em particular de Zaian, o refugiado sírio com o mesmo nome, que encarna um menino de 12 anos, mas com a responsabilidade de um adulto. Até mesmo com a audácia de mover um processo juficial aos pais pode lhe terem dado uma vida tão miserável. Sobretudo depois de ver partir a irmã de 11 anos, cedida em casamento pelos pais a um homem na vã esperança de vir a ter uma hipótese futuro. É também sua empatia, devidamente envolvida por um manto de doçura e musicada por uma banda sonoroa intencional.

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