Setembro 20, 2018

Cannes: ‘3 Faces’, de Jafar Panahi: a misoginia iraniana vista pelo olhar de três gerações de mulheres

3 Faces

Cannes 2018. 3 Faces. Competição

Mesmo a cumprir uma pena de prisão domiciliária, por acusação de propaganda anti-regime, Jafar Panahi faz um cinema que não precisa de mais meios para nos tocar de forma profunda e, ao mesmo tempo, auscultar o peso incomensurável da sociedade patriarcal iraniana. Nesse sentido, 3 Faces, ou em português 3 Rostos, é um filme porventura até mais feminino e que significa mais do que o movimento #MeeToo.

Os tais rostos são os de três diferentes mulheres que irá acompanhar. Ele mesmo, Jafar Panahi, como tem sucedido em vários dos seus filmes, desloca-se com a actriz Behnaz Jafari, muito conhecida no Irão, para apurar o que sucedeu após Jafari ter recebido um estranho vídeo onde uma jovem aparentemente cometera suicídio após lamentar a proibição da família em que estudasse e se tornasse actriz. Aliás, é com esse vídeo perturbador do telemóvel dela que o filme começa.

 É então num misto de drama familiar e thriller, de contornos Hitchcock e até Agatha Christie que este duo chega à aldeia da jovem, algures na região do Azerbeijão, já perto da Turquia. É aqui que irá ser reflectido o passado presente e futuro da arte e cultura de uma sociedade que acredita piamente no ritual da circuncisão e no sucesso do jovem cujo prepúcio for enviado para um local considerado ideal para o seu, ou até o peso inquestionável dos animais reprodutores. E, naturalmente, onde o desejo de uma jovem estudar é considerado absurdo e desconsiderado.

Neste filme que tem o seu lado de road movie, e que nos recorda até embora O Sabor da Cereja, de 1997, do compatriota Abbas Kiaristami, Panahi observa de forma serena e distante a sua herança e o legado destas mulheres. Desde logo, o futuro comprometido dessa jovem indomável, mas também o confronto com o passado de uma actriz isolada da aldeia cuja carreira remonta ao período anterior à revolução de 1979, que derrubou o Xá e impôs uma república teocrática.

E é na forma delicada como se afloram estas nuances, a partilha dos rituais e costumes ancestrais que o filme vai crescendo de significado. Já depois de se saber o que sucedeu verdadeiramente à jovem. Mais interessante até que o anterior Táxi de Jafar Panahi, quando venceu o Urso de Ouro no festival de Berlim e ainda o prémio FIPRESCI, Três Rostos vale não só pela sua tremenda actualidade como ainda pela coragem de denúncia apesar da sua condição. Tal como o russo Kirill Sebrennikov, também Jafar Panahi foi alvo de um esforço da República Francesa para que estivesse presente no Festival, embora uma tentativa gorada em ambos os casos. O filme, esse, fica para a posteridade.

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