Dezembro 17, 2018

O sexo forte nunca foi tão forte: na ficção televisiva são Elas que mandam!

A propósito de…

The Crown, Big Little Lies, The Marvelous Mrs. MaiselThe Handmaid’s Tale

Aqui, é o #MeToo que domina!

Claire Foy, Rachel Brosnahan, Reese Witherspoon, Elisabeth Moss… sim, as amazonas já estão a dar cartas na ficção. Dominam no pequeno ecrã, nas séries Big Little Lies, The Marvelous Mrs. Maisel, The Crown e, claro, de The Handmaid’s Tale, todas elas distinguidas pelos Emmys e Globos de Ouro. Sim, a testosterona de Game of Thrones ou Walking Dead já era… Agora são elas que mandam.

 

Netflix, Amazon, HBO e Hulu dominam a nossa atenção e oferecem muito mais do que grande parte dos produtos de ficção destilados dos estúdios. Na verdade, é enorme a atração que o formato do ecrã televisivo vai criando, atraindo realizadores, produtores e, naturalmente, atores. Num ápice, devorámos as primeiras séries de cada uma delas. E ficámos a chorar por mais.

Sejamos claros, os grandes papéis de televisão que temos hoje em dia são femininos. Nesse sentido, viva o momento #MeToo, já que não só nos devolvem riquíssimas personagens femininas e emancipadas, como todo o cast feminino de Big Little Lies, na criação genial de David E. Keeley (ainda se lembram de Ally McBeal?); a caminho dessa emancipação, ou a lutar por ela, revivemos a ascensão da rainha Isabel II no deslumbrante The Crown, de Peter Morgan, com a estupenda Claire Foy, ou seguramente o arrebatador percurso de Rachel Brosnahan, na mulher que acorda para a vida nos demasiado certinhos anos 50, na mulher de família que descobre que nasceu para fazer stand up comedy em The Marvelous Mrs. Maisel. Sim, não esquecemos o significado de Elizabeth Moss no perturbante The Handmaid’s Tale.

Há um quinteto fantástico e efervescente de fêmeas poderosas em Big Little Lies, a mini-série da HBO em que o poder feminino ameaça indícios de sangue desde o primeiro episódio. Assim vamos como que em permanente flash back até às origens dessa comunidade despreocupada e abastada de Monterrey que se esconde atrás do verniz do quinteto Reese Witherspoon, Nicole Kidman, Shailene Woodley, Laura Dern e Zoe Kravitz. E, sim, esse verniz vai mesmo estalar e provocar tumultos na habitualmente pacata maresia californiana, envolvendo um punhado de mamãs demasiado empenhadas (e demasiado burguesas) a serem mulheres, esposas e mães numa surpreendente trama manchada de sangue que as deixará à beira de um ataque de nervos. Este é também a oportunidade de ver enormes atrizes do calibre destas atrizes enormes, aqui todas no seu melhor e empenhadas num formato que parece começar a constituir-se como forte alternativa ao ecrã de cinema.

Que dizer então da irresistível transformação da submissa houswife judia Miriam numa original e espontânea comediante de stand up em Greenwich Village – isto nos púdicos anos 50 -, e especialmente quando suavemente tocada pelo álcool. Tudo se passa na genial primeira série de The Marvelous Mrs. Maisel, criada por Amy Sherman-Palladino para a Amazon Video, tirando partido do enorme talento de miss Rachel Brosnahan. Ela que despertou até atenção do grande Lenny Bruce. É este grito da mulher superiormente inteligente no seio de uma família judia up class e up town de Nova Iorque, a superar o desânimo do marido que a troca por uma secretária de segunda. Pois bem, sauda-se este pulsar de sangue novo e diálogos que nos agarram da primeira à última palavra.

Quem achava que já se tinha dito tudo sobre a realeza britânica em todas as variantes sobre a matéria, engana-se. É que The Crown é mesmo dos melhores produtos televisivos do momento. Precisamente, o oposto do déjà vu, mesmo que não se invente nada de novo sobre a família real britânica. É precisamente nessa revisão, assumidamente clássica, que Peter Morgan contorna todos os possíveis escolhos e devolve uma excelentíssima narrativa que não tem receio de trilhar rumos e personagens marcantes ainda recentemente traçados. E até com a coragem de retratar a atual rainha e até a nova recriação de Winston Churchill, tão bem defendido por John Lithgow, ainda recentemente recompensado com um Emmy. Isto no ano em que o famoso Prime Minister coroado pela prestação multipremiada de Gary Oldman.

No entanto é Claire Foy o foco tremendo da nossa atenção neste produto da Netflix. Como a rainha que não era para ser, apenas em virtude do Duke de Windsor (Alex Jennings) ter abdicado – por amor de Wallis Simpson (Lia Williams) – e por o pai, o Rei George (Jared Harris), o gago – ter falecido, empurrando-a assim para monarca do Reino. E ainda a mulher que aprende a ser também. E há tanto para gostar na prestação de Foy, a deixar entrever o rosto doce daquela monarca que cresceu a ouvir quem devia e a tomar as suas próprias decisões. E que melhor para a Rainha de Inglaterra para espelhar o sentimento que parece estar hoje em dia a mudar a maneira de pensar, de tudo aquilo que tem sido dado como adquirido, mas que há muito tem sido, no mínimo, alvo de alguma dúvida ou discussão?

Finalmente, o que dizer sobre o fervor de uma causa espelhado no avassalador The Handmaid’s Tale, de Bruce Miller, a encomendada pelo serviço de steaming Hulu, a partir do romance da canadiana Margaret Atwood, fixado numa série marcada a traço grosso por este selo de luta totalitária e de subjugação feminina. É nesta sociedade totalitária cristã, inacreditavelmente tão próximo de nós, até por um certo sacerdote lusitano, em que se esgrime a bandeira da reprodução e das castas, em que o ser feminino existe para uma função. E aqui temos Elizabeth Moss para um dos papéis centrais deste tempo. Apesar do sucesso global que lhe cabe, nem é a nossa preferida neste ramalhete de ficção televisiva. Talvez por a narrativa de Atwood necessitar de ir ao extremo, a esse modelo de sociedade distópica, para enquadrar esse exército de mulheres escravas.

Algo mudou nos últimos Globos de Ouro, onda a poderosa série Game of Thrones foi atropelada por The Handmaid’s Tale. E não deixa de ser curioso, quanto mais não seja porque até as duas séries acabam por se tocar. Não só pela sua sexualidade perene, bem como por uma ficção embora demasiado alavancada numa realidade bem próxima de nós ou até pela forma como o ato de violação é retratado com uma narrativa em si própria. E qual será a diferença? Talvez esteja na humanização das personagens. Não será preciso dizer em qual das séries, pois não?

Sobre Paulo Portugal 693 artigos
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