Junho 19, 2018

Óscares 2018: ‘A Forma da Água’ ganha filme e realizador em cerimónia previsível

A Forma da Água, do mexicano “emigrante” Guillermo del Toro, venceu sem surpresas os prémios mais importantes – Melhor Filme e Realização – numa noite previsível e maçadora, aliada à falta de uma mensagem mais clara sobre o gritante movimento igualitário. Mas ofereceu-se um jet ski para o discurso mais curto…

Quando então o repetente Warren Beatty e Faye Dunnaway subiram ao palco para emendar o desastre do ano passado, e confirmaram mesmo que o vencedor do Óscar de Melhor Filme era mesmo A Forma da Àgua, caíram também por terra as possibilidades de distinção de filmes melhores, como Três Cartazes a Beira da Estrada, seguramente o grande perdedor da noite, com apenas dois Óscares, Chama-me Pelo Teu Nome ou Foge!, apenas com o Óscar de Guião adaptado. A Linha Invisível, de Paul Thomas Anderson ficou-se pelo prémio decorativo, e inevitável, do guarda-roupa. Surpresas, nicles. Ou apenas Jordan Peele a ‘roubar’ o guião original ao Martin McDonagh.

Assim decorreu a cerimónia dos 90 anos da estatueta do homem sisudo. Então no capítulo da interpretação o tédio foi demasiado, com o selo há muito decidido. O que nos leva a pensar na forma conservadora e carreirista como decidem os membros da Academia – e até, se quisermos, o setor mais da imprensa mais próximo da indústria e que acaba por ser responsável por um hype que quase sempre resulta em preferências mais ou menos consensuais, ainda que nem sempre ajustadas. Mas isso é outra conversa.

Para a história fica então A Forma da Água, um filme que cedo se posicionou como favorito aos Óscares e que não foi abalado pelas acusações de plágio, a tal variante do Monstro da Lagoa Negra, um filme série muito B de ficção científica, que iniciou a corrida aos mais importantes prémios do cinema assim que venceu o Leão de Ouro, em setembro passado, no festival de Veneza, iniciando depois uma longa lista de prémios da indústria.

Se quanto ao melhor filme ainda se poderiam alimentar algumas expetativas, já que del Toro concorria com mais oito candidatos, as categorias de interpretação limitaram-se à confirmação do que há muito era dado como seguro, em mais uma demonstração de conservadorismo académico. Frances McDormand e Sam Rockwell venceram a interpretação feminina e melhor secundário, confirmando a razão pela qual Três Cartazes à Beira da Estrada foi um dos fenómenos da temporada, com treze nomeações, embora ficando-se por quatro prémios, em grande parte devido ao guião espevitado de Martin McDonagh. Ele que haveria de perder o Óscar de Melhor Guião Original para Jordan Peele, naquela que foi a única surpresa da noite, mas também a meia injustiça. E só metade porque também na incrível história de Peele que assenta parte do sucesso de Foge!

O mesmo sucedeu com a mera confirmação de Gary Oldman, pela composição absorvente de Churchill, em A Horas Mais Negra, na sua longa carreira distinguida em que obteve o primeiro prémio na segunda nomeação, tal como a avassaladora prestação de Alysson Janney em Eu, Tonya, outro dos filmes injustiçados, desde logo pela ausência da nomeação para Margot Robbie, talvez na prestação mais completa das visadas.

A noite dos Óscares deu ainda três prémios técnicos a Dunkirk, no relato épico da retirada das tropas britânicas das praias da Normandia por Chris Nolan, mesmo que num registo não nos chegou a convencer. E tivemos a consagração de Uma Mulher Fantástica, do chileno Sebastian Lelio, o tal filme sobre uma mulher transexual – a mulher fantástica é mesmo Daniela Vega – na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. A Pixar soma e segue, não deixando espaço à concorrência, com Coco a somar o tema musical à melhor animação.

De fora ficaram, com alguma injustiça, Lady Bird e The Post, sem conquistar qualquer prémio, ou mesmo Mudbound. 

 

Ficou assim o Palmarés:

Melhor Filme: A Forma da Água

Realização: Guillermo del Toro, A Forma da Água

Ator: Gary Oldman, A Hora Mais Negra

Atriz: Frances McDormand, Três Cartazes a Beira da Estrada

Atriz Secundária: Allison Janney, Eu, Tonya

Ator Secundário: Sam Rockwell, Três Cartazes a Beira da Estrada

Fotografia: Roger Deakins, Blade Runner 2049

Argumento original: Jordan Peele, Foge!

Argumento Adaptado: James Ivory, Chama-me Pelo Teu Nome

Montagem: Lee Smith, Dunkirk

Banda sonora original: Alexandre Desplat, A Forma da Água

Melhor Filme Estrangeiro: Uma Mulher Fantástica, Chile

Melhor Documentário: Icarus, de Bryan Fogel e Dan Cogan

Design de produção: A Forma da Água, Paul Denham Austerberry, Shane Vieau e Jeff Melvin

Guarda-roupa: Mark Bridges, A Linha Fantasma

Montagem de som: Richard King e Alex Gibson, Dunkirk

Mistura de som: Mark Weingarten, Gregg Landaker e Gary A. Rizzo, Dunkirk

Efeitos Visuais: John Nelson, Gerd Nefzer, Paul Lambert e Richard R. Hoover, Blade Runner 2049

Maquilhagem e guarda-roupa: Kazuhiro Tsuji, David Malinowski e Lucy Sibbick, A Hora Mais Negra

Banda sonora (tema original): Remember Me, Coco

Melhor Documentário – curta: Heaven Is a Traffic Jam on the 405, de Frank Stiefel

Melhor Animação: Coco

Melhor curta: The Silent Child, Chris Overton e Rachel Shenton

Melhor curta animação: Dear Basketball, de Glen Keane e Kobe Bryant

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