Junho 19, 2018

Ramiro: Manuel Mozos refletido na nostalgia de um alfarrabista

Manuel Mozos volta ao cinema, de onde nunca saiu. Volta também à ficção uma década depois de 4 Copas. Ramiro é o cinema português de hoje, de braço dado com a nostalgia de um passado clássico embora de janelas abertas a uma certa modernidade lisboeta e ao seu hype. De certa forma, este Ramiro alfarrabista interpretado com rigor estóico por António Mortágua reflete também um pouco o cinema e teimosia de Manuel Mozos, aqui redesenhado pelo guião de Telmo Churro e Mariana Ricardo, colaboradores habituais de Miguel Gomes.

Nesse sentido, Ramiro acompanha o quotidiano mais ou menos cinzento do homem dos livros que sabe de edições raras, que compra e vende, embora esta sua atividade esconda uma outra, mais profunda, e por isso mesmo mais amada, a dos pensamentos de prosa e verso que vai escrevinhando no seu bloco de notas. É o tal convívio com esse museu da escrita que despertou nele a pulsão de passar para o papel o que lhe ia na alma. Mas que poucos lêem e que tarda a converter-se em livro. E não será também este Mozos, o alfarrabista cujo filme Xavier passou por tantas vicissitudes até estrear?

Entre os afazeres da loja, o writers block que se inebria entre a cenas de copos com os amigos ou as confidências com o seu cão, Ramiro vai-nos mostrando o seu mundo que é também uma Lisboa em mutação. Nesse sentido, está aqui também aqui parte do lado documental que Mozos não abandona completamente. Nem que seja por considerar a cidade de Lisboa igualmente como uma personagem do filme, de resto como nos confirmou durante a nossa longa e saborosa conversa na Cinemateca Portuguesa.

Percebe-se que Telmo e Mariana desejaram transpor o lado de rato de Cinemateca de Mozos, afinal de contas o alfarrabista do ANIM, que se dedica a investigar a arqueologia do cinema, atribuindo até a esta personagem alguns hábitos ou prazeres que não serão alheios ao realizador. Embora com o desafio dos argumentistas tenha sido provocar Ramiro com alguns elementos estranhos, que o perturbam o revelam. Desde logo, a presença de Daniela, a menina adolescente espevitada grávida (Madalena Almeida), de pai incógnito, com quem consegue manter uma relação de alguma confidência, a professora dela (Cristina Carvalhal), a avó (Fernanda Neves) a recuperar de um acidente cardíaco e os outros vizinhos, sem esquecer uma possibilidade amorosa. E até mesmo o pai de Daniela (Vítor Correia) que visita na prisão onde cumpre pena pelo homicídio da mulher. Ao fim e ao cabo, elementos mais ligeiros mas que conferem alguma cor ao cinzentismo de Ramiro.

Este pode até nem ser aquele filme que Mozos mais desejava no seu íntimo, tal como a obra genial que Ramiro cozinha na mente, mas não deixa de ter aquela honestidade que reconhecemos ao realizador de Xavier, o tal filme de estreia e de gestação complicada. De certa forma, esse desígnio mais ou menos conformado de Ramiro que nos faz recordar os indícios que atravessam Xavier. De certa forma, não será Ramiro um Xavier mais maduro, mais vivido?

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