Maio 23, 2018

Entrevista com Adina Pintilie: “’Touch me Not’ questiona a forma como encaramos a beleza, sexualidade e a intimidade”

A vencedora do Urso de Ouro revela-se.

Falámos com a realizadora cujo início da sua carreira passou pelo IndieLisboa. Diz que gostaria de voltar.

Preparados para enfrentar a nossa própria intimidade e explorar o comportamento sexual? Explorar o nosso ser interior e estar preparados para alcançar o outro, mesmo que não seja o conceito ideal de beleza? Chamem-lhe filme terapêutico, se quiserem. Porque é disso que se trata.

Na sua primeira longa metragem, a romena Adina Pintilie que venceu do Urso de Ouro, em Berlim, com Touch Me Not, não recusa essa visão e convida-nos mesmo para a longa jornada onde ela e um grupo de pessoas se submetem a um workshop onde estes problemas são abordados com coragem.

Laura, por exemplo, tem um severo problema de intimidade. Ela não permite que alguém lhe toque, muto menos um homem; já Tudor, o ator islandês (vimo-lo a última vez em Blade Runner 2049) tenta aceitar-se a si próprio bem como o outro, em particular Christian, cujo corpo assume uma profunda deficiência física, mas que não afetou o raciocínio acutilante. Intervêm também terapeutas sexuais, travestis e até um pouco de s&m para nos ajudar a ir mais fundo.

Touch me Not venceu também em Berlin o prémio da melhor primeira longa metragem, um registo que propõe uma reflexão e desconstrução do cinema que acontece diante dos nossos olhos e que funciona também como “um convite para a embatia e a aproximação do outro e a reconsiderar tudo o que sabemos”, como a autora descreveu à imprensa depois de conquistar o Urso de Ouro.

Será que podemos considerar o seu filme como uma experiência terapêutica? Concordaria com essa definição?

Adina Pintilie – Depende da noção de terapia. Porque, normalmente, especialmente em psicanalise, não se cura uma doença, é mais um processo em que reaprendemos e nos relacionamos com uma aproximação terapêutica. Como na relação com um espelho diante de nós, que funciona como terapeuta. Nesse sentido, Touch Me Not pode ser considerado um processo terapêutico. Ou uma relação terapêutica.

Apesar do título Touch Me Not, no filme é tudo sobre o toque, a pele, as carícias… Não será esta uma contradição involuntária?

É um filme que lida com pessoas que sonham com a intimidade, mas que ao mesmo tempo têm medo dela. Nesse sentido, há uma luta interior. Este é então um filme sobre pessoas que tentam libertar-se dessa liberdade interior. O título tem essa contradição sobre essa necessidade de intimidade e o medo dela. Talvez seja uma impossibilidade gramática. Mas é essa a verdade.

Ao mesmo tempo essa terapia também acompanha o espetador, certo?

Sem dúvida. Encarar o nosso comportamento sexual é como olharmo-nos ao espelho. Ao olhar para si próprio poderá começar a compreender melhor e abandonar sentimentos de culpa.

Touch Me Not está muito próximo do documentário, embora mais numa linha de margem entre a ficção. Poderemos dizer que essa opção foi um ponto de partida para si?

Sim, nunca lhe chamaria um documentário. Isso é algo que recuso com todas as minhas forças. É um mix, um híbrido entre a ficção e a realidade.

Em todo o caso, não deixa de estar próximo com outros trabalhos que fez no domínio do documenrário…

Está a falar de Don’t Get Me Wong (2007)?

Precisamente.

Acho que este é muito diferente.

Pois é, mas creio que existe uma ligação.

Sim, foi aí o ponto de partida, como um método de trabalho. E esse também é um híbrido da realidade com elementos de ficção. Só que vai mais longe do que isso. Aqui, a ficção é o elemento principal e a estrutura é mais clara, mas o objetivo principal é a criação de uma zona de conforto para que possamos trabalhar com elementos autênticos e a realidade dos encontros entre as pessoas. Nesse sentido, pode ter uma relação. É verdade que não me interessa a ficção ‘per se’. Interessa-me mais a ficção como uma ferramenta e para investigar elementos e coisas reais.

No início tinha já alguma ideia de onde este processo iria acabar, e o que poderia alcançar?

No início, tinha uma espécie de guião, mas era mais uma estrutura de trabalho. Esta jornada de auto-descoberta de uma mulher que encontra vários acompanhantes profissionais para superar os seus problemas de intimidade. Descobrimos estas pessoas que vieram para este ambiente do filme, depois de participarmos num workshop para pessoas com deficiência. A seguir ao casting, trouxemos os participantes que no nosso entender eram mais adequados e que teriam sensibilidade para se expressar e envolve-los nessa realidade. Nesse sentido, só posso dizer que tenho um plano sobre o que pode acontecer, embora não saiba exatamente o que irá acontecer.

Fico com a impressão de que este filme não para por aqui. Irá explorar no futuro outros elementos seguindo este tipo de abordagem que iniciou aqui?

Exatamente, este é um processo em movimento. Estou já a preparar o próximo filme. É uma radiografia de uma relação ao longo de um longo período de tempo.

Significa que já tem elementos concretos. Um projeto que já tem nome?

Sim, tem para já o título The Death and the Maiden. É sobre um ‘power couple’. Mas porque é algo que decorre durante um longo período de tempo, tivemos tempo nessa relação para desenvolver a memória subjetiva. É algo que se desenvolve gradualmente. Mas primeiro tenho de dormir depois da Berlinale! Em seguida terminar o som e os últimos masters. Tecnicamente, temos de o terminar.

Significa isso que poderá estar pronto para Cannes?

A parte técnica estará concluída por volta de Junho.

Ok, vamos esperar. Obrigado Adina Pintilie. Pode ser que volte ao IndieLisboa?

Ah sim, claro, gostaria muito de voltar.

 

 

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