Novembro 22, 2019
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Berlinale: como será reviver o massacre de Utoya num único take?

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Ontem, na Berlinale, foi um dia de grande tensão realista numa sinuosa viagem temporal pelo cinema. Revivemos o massacre de Utoya, na Noruega, em 2011, o resgate dos reféns em Entebbe, em 1967, e ainda os últimos dias de Romy Schneider, no início dos anos 80. Mas a melhor notícia é que o cinema produzido foz o que lhe competia, transmitir esse pedaço de realidade sob a forma de bom cinema.

Mas fiquemo-nos por Utoya, 22 July. Esta é a tentativa da reconstituição do trauma vivido naquele dia fatídico pelas cinco centenas de adolescentes cujo acampamento de verão se converteu num inferno de proporções inimagináveis. Rodado em tempo real num único plano, o filme relata o que aconteceu depois do atentado no centro de Oslo e os 71 minutos que durou o ataque de Breivik aos jovens no acampamento. Confessou o cineasta na conferência de imprensa que fez cinco planos desses 71 minutos, em setembro passado, filmando um take por dia, de segunda a sexta, e selecionando depois um deles.

Diz-nos a história que 69 perderam a vida pela mira do extremismo de direita, deixando uma ferida difícil de apagar numa nação pacifista e talvez até por isso impreparada para responder como devia a esta catástrofe.

Depois de ponderar o regresso a este tema, o cineasta Erik Poppe (A Escolha do Rei, 2016) optou por uma reconstituição do evento que se centrasse num misto das inúmeras testemunhas, evitando assim o foco apenas na experiência de alguns. Uma forma de conservar o respeito e não se tornar parcial.

E assim ganhamos ou ficamos a perder? A verdade é que o filme agarra-nos de imediato, sobretudo quando percebemos que a câmara nunca mais vai parar. Em particular quando começa o tiroteio. Só que, quem pensa que vai gozar com o ‘shoo+em up’ está enganado. Isto porque a opção vai centrar-se nos momentos passados nos pequenos ninhos de jovens escondidos na ilha de Utoya. E os tiros que começam por ser avassaladores resvalando depois para uma dimensão de foto de artifício ao longe, já que ouvem-se sempre ao longe sem um contacto mais direto. Em particular, o filme segue a jovem Kaja (Andrea Berntzen) na sua deriva, tentando salvar a pele e ajudando quem pode pelo caminho, sem nunca perder de vista o objetivo de encontrar a irmã mais nova.

É um filme choque, de suspense avassalador, se bem que o impacto inicial acaba por esmorecer e redundar em alguns momentos menos conseguidos, embora sempre bem captados pela câmara incansável que espelha o medo deles, o nosso medo. Compreende-se, e aplaude-se, a ideia de não ser um filme exploratório daquela torrente de violência, embora um excesso de pudor o deixe ficar refém de uma narrativa que acaba por não ser totalmente satisfatória. Ainda assim, dificilmente deixará de ser um pequeno fenómeno.

Sobre Paulo Portugal 811 artigos
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