Maio 24, 2019
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Berlinale: ‘Las Herederas’ é um belo filme sobre a condição feminina no Paraguai

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Aparentemente, confirma-se a tendência da programação da Berlinale em privilegiar filmes com temática feminina, ainda que com escolhas de qualidade bem variável. O dia de ontem começou bem com a proposta do realizador paraguaio Marcelo Martinessi, com Las Herederas. Percebe-se um cinema muito seguro e empenhado numa revisão do tecido social local. Ele que já convenceu o júri em Veneza quando venceu o Leão de Ouro com a sua curta documental The Lost Voice, em 2016.

Segue aqui uma deriva de auscultação da realidade patriarcal do seu país, assente num filme integralmente defendido por mulheres, e em que os escassos homens que aparecem são meros figurantes. A história assenta em duas amigas que obviamente tiveram uma longa vida em comum, embora Martinessi não se sente forçado a explicar a sua relação, tal como várias outras coisas no filme, deixando esses espaços em branco para o espetador refletir e eventualmente preencher.

Chela (a estreante Ana Brun) e Chiquita (atriz com larga experiência no teatro) são duas sexagenárias que perceberam que a vida desafogada do passado terá de passar a ser enquadrada por uma nova realidade e um novo suporte financeiro. Ao serem forçadas a sair de casa, percebem também uma nova realidade. Chela acaba por utilizar o seu carro para transportar amigas e conhecidas acabando por ter aí alguma compensação financeira. Ao passo que Chiquita, incapaz de pagar as suas dúvidas e forçada a conhecer a realidade de uma prisão para mulheres. No fundo, Chela sai de casa e Chiquita entra para outra realidade, mas onde acaba por ser também a ‘rainha’ que era em casa.

Martinessi ausculta a pulsação da realidade feminina, caracterizada por ser muito fechada, propondo estas novas possibilidades, ainda que não abdicando de um cinema que mantém esse lado fechado. Talvez por isso, a primeira imagem do filme a câmara parece espreitar o que se passa, com algum pudor, como se tivesse medo de sair da escuridão. Mas é precisamente essa escuridão que absorve a condição social no seu país e que nos é descrito de uma forma muito subtil, sem necessitar de fazer passar o peso da mensagem de eternizada e vincada sociedade. Foi uma bela surpresa de um cineasta que confirma o que de melhor se esperava.

Passa a ser assim o primeiro grande filme da competição.

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