Dezembro 10, 2018

A Hora Mais Negra: Joe Wright ensaia o inverso do Brexit

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No ano do Brexit fomos já brindados com diversas variantes do mais célebre discurso de Churchil a defender a Europa invadida pela ferocidade nazi. Faltava-nos a versão Joe Wright (que é a melhor também) a refletir a ascensão política do Primeiro Ministro britânico empenhado a conduzir a Grã-Bretanha na sua hora mais negra e nos destinos da 2ª Guerra Mundial. Ao ver este belo filme de Joe Wright confirma-se que – e já depois da conquista do Globo de Ouro -, dificilmente Gary Oldman deixará de receber o Óscar por esta prestação homérica em A Hora Mais Negra.

Mérito para a habilidade de Wright a dominar as diversas cambiantes do filme, fazendo-nos acreditar que a guerra de bastidores e gabinetes era travada com o mesmo entusiasmo que o conflito no terreno. É aí que se concretiza o rigoroso trabalho do argumento de Anthony McCarten, o harmonioso jogo de luz e sombras da fotografia de Bruno Delbonnel e, até mesmo, banda sonora discreta e eficaz de Dario Marianelli, bem distante do excesso irritante de Hans Zimmer, em Dunkirk.

O filme decorre durante os dias decisivos entre 8 de maio e 4 de junho de 1940, durante o período em que a cúpula do governo britânico oscilou entre a defesa parlamentar, promovida por um eficaz Ronald Pickup a compor o desgastado Neville Chamberlian e do Lord Halifax, em adequado registo de Stephen Dillane, e a persistência de Churchill do outro lado. Em todos os casos, um notável trabalho de interpretação. Como acontecera já no telefilme Their Finest, o papel da secretária do exigente Winston tem o seu relevo, nesta caso agora a pertencer a Lily James, num registo muito cumpridor. Uma palavra ainda à irrepreensível Kristin Scott Thomas, no papel da esposa empenhada Clemmie.

Se virmos bem, do ponto de vista narrativo, esta incursão de Joe Wright sobre um dos episódios marcantes da 2ª Guerra Mundial até nem trás nada de novo. Embora a extrema classe com que o cineasta britânico confere a cada detalhe, cada plano, cada reconstituição, tratando este filme como se fosse um fresco histórico, acaba por conferir ao documento um peso enorme que escapa ao estilo telefilme e às enésimas reproduções desta figura central e do seu papel no mapa político europeu. Não deixa, por isso mesmo, de ser sintomático a estreia deste filme, do empenho de um país (a Grã-Bretanha) para salvar outro (A França) e a Europa. Precisamente al altura em que se ultimam os detalhes desse desembarque britânico da Europa.

Seja como for, o que não faltará igualmente serão as comparações entre a versão de Wright e a de Nolan (Dunkirk) sobre o mesmo evento histórico, desde logo pelas diferentes opções de tratamento dramático, em que Nolan privilegia a ação, centrando-se na ação no terreno e o auscultar da pulsação da tropa, ao passo que Wright afirma-se pelo contexto, peso narrativo e desenvolvimento político. Mesmo quando nos dá um episódio ficcionado, arriscado até, mas conseguido, em que Churchill vai sentir o pulso da nação e perceber se estaria preparado para assumir esse supremo desafio, ao interromper a sua viagem para Westminster para se misturar com o povo numa comovente viagem de metropolitano. Igualmente relevante é a postura soberana de Ben Mendelsohn a assumir uma cumplicidade na decisão de Churchil, ele que esperamos que esteja na short list das listas de distinções aos papéis secundários.

Poderia até pensar-se que tudo gira em redor da pujança de Oldman, mas não é bem assim. Mesmo com um ator desfigurado numa personagem que não é nada evidente, o resultado impressiona. De tal maneira que numa vasta galeria de representações de Churchill, esta passará agora a ser referência. Mesmo depois do esforço muito aceitável de Brian Cox em Their Finest. No entanto, Wright não nos apresenta um Churchill imaculado, pelo contrário, é o homem acossado pelo desaire da batalha de Gallipoli, na Primeira Guerra Mundial. Ele que mudará essa opinião com o discurso em que proclamará a célebre frase “will never surrender!”

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