Setembro 20, 2018

Jogo da Alta Roda: Sorkin escorrega no erotismo das palavras

Aaron Sorkin é seguramente um argumentista sexy, seguramente dos mais respeitados da atualidade. Com ele, a narrativa flui como um erotismo crescente, por vezes num turbilhão que exige a nossa total entrega. Mas nesta sua primeira tentativa da realização, percebe-se como se deixou seduzir por essa tal sedução. Só que neste Jogo da Alta Roda, nem a presença vistosa de Jessica Chastain e do imponente Idris Elba conseguem esconder uma escorregadela assente numa história que verdadeiramente nunca nos chega a tocar. Fica, isso sim, o estilo e o requinte de quase tudo.

Ao agarrar os direitos de adaptação do romance original da muito sexy Molly Bloom, Sorkin enreda-nos neste jogo palavroso, muito hype, com Chastain na posse dos seus elementos, tal como Elba ou mesmo Kevin Costner, que fará o papel do pai se Bloom, um psicólogo e treinador desportivo muito exigente. E que nos leva desde o seu grave acidente de esqui, quando treinava para as Olimpíadas, e que a leva a mudar de vida. Na pesquisa que fizemos, ficámos a saber também que a proximidade com estrelas de cinema que frequentavam as mesas de poker. por exemplo, algumas não se portavam à altura. Como Tobey Maguire, arrogante ao ponto de afirmar que a sua gorjeta de mil dólares apenas iria parar ao seu bolso se imitasse uma foca. Bem mais elogiosa foi Molly Bloom para Ben Affleck que considerou um gentleman.

O problema é que depressa este Jogo da Alta Roda estabelece a sua premissa, ou seja, os diálogos que se afirmam como verdadeiros protagonistas. Ou como se essa proximidade ao dinheiro graúdo fosse, por si só, sinónimo de um erotismo intelectual, talvez na estreia de um cinema mais clássico. Mas que sinceramente, fora dessa capa pouco mais nos oferece. Há muita atitude, muita conversa, mas percebemos cedo demais que este fica muito aquém de todas as outras assinaturas de Aaron Sorkin.

É uma pena, porque o autor de Uma Questão de Honra, que em 1992 envolveu Tom Cruise, Jack Nicholson e Demi Moore, numa intrincada trama de relações de poder no seio da justiça militar, sempre conseguiu que o interesse da história se sobrepusesse ao trabalho do realizador. Sobretudo na memorável série West Wing, que bebemos fervorosamente durante anos nas edições de DVD estrangeiras (antes do online), em que os diálogos se cruzavam ao longo dos corredores e das diversas salas da Casa Branca.

E foi essa ligação política que frequentemente o envolveu em narrativas irresistíveis, como Jogos de Poder, em 2007, ou mesmo em A Rede Social, sim, superando mesmo o excelente trabalho de David Fincher, mas foram os diálogos decididos de Jesse Eisenberg que ficaram e nos conseguiram interessar pelas variáveis matemáticas que estiveram na origem do Facebook. E que se prolongaram depois pelo perfil de Steve Jobs, no seu filme homónimo. Sorking até conseguiu ser convincente, mesmo quando nos ‘vendeu’ um filme sobre um tema nada interessante como o futebol americano (Moneyball – Jogada de Risco). Já este Jogo de Alta Roda percebemos que se tornou numa verdadeira “jogada de risco”.

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