Last Men in Aleppo: a força do cinema verité dá vida onde só há morte

Por vezes, a emergência de certos filmes documentais sobrepõe-se a inquietações de natureza estética e acaba por nos oferecer uma visão mais imediata e próxima de uma narrativa ancorada na realidade. Isso é tão mais evidente em situações de conflito armado ou quando existem graves violações de direitos humanos em que esse registo se impõe como a matéria prima vital para a análise crítica. Mas há outros casos ainda em que essa visão intencional do cineasta não está afastada, ainda que fique sujeita a certos acasos ou infortúnios. Last Men in Aleppo é um desses casos.

No caso de Last Men in Aleppo o próprio título do documentário vencedor em Sundance em janeiro de 2017 e em diversos outros festivais é explicativo. O cineasta sírio Firas Fayyad e a sua equipa captou a destruição da cidade de Aleppo e a imensa vontade de viver daqueles que teimam em ficar mesmo após cinco anos de conflito intenso. Segue-se em particular a equipa dos Capacetes Brancos, uma brigada de voluntários criada em 2013 destinada a intervir após a rotina dos bombardeamentos, nomeadamente Khalid, Subhi e Mahmoud, os membros fundadores deste corpo de intervenção que se recusam a sair da cidade e se empenham a ajudar os seus compatriotas, ao mesmo tempo que lançam pragas a Bashar al-Assad e aos aviões russos que vão sobrevoando a cidade e lançando as suas bombas.

Há um olho de peixe dourado que nos fita na abertura de Last Man In Aleppo numa belíssima sequência durante os créditos. Assim ficamos a saber que este não será apenas um documentário do registo da realidade. Haverá uma intenção para as imagens que supera a mera realidade. Tal como os peixes que observam há também muita gente a olhar para o céu. Como Khaled a observar o movimento dos caças soviéticos sobre o céu de Aleppo.

 Para este projeto Feras contou com o apoio Aleppo Media Center para esses dois anos de rodagem que vemos agora neste arrepiante documentário, seguramente um dos melhores do ano. É difícil ficar indiferente a crianças resgatadas dos escombros, com crânios esfacelados, muitas delas mortas. Um trabalho que tem de ser feito, já o sabemos, e que convida a esse distanciamento, sobretudo quando avaliam um pedaço de um pé e indagam se é de um dos seus colegas.

No meio deste cenário de morte, percebemos também um imenso desejo de viver de uma comunidade que vai procurando fazer a sua vida normal. Seja a atividades das crianças, em particular os filhos de Khaled bastante participativos no filme, ou então a decisão de plantar um árvore ou mesmo comprar peixes de aquário como último recurso alimentar em caso de prolongado cerco à cidade.

As câmaras seguem estes elementos quase como se fosse uma ficção. Até que somos surpreendidos pelo peso da realidade. É o cinema verité que se impõe aqui, sem grande rigor das regras do documentário e em que a câmara faz parte da ação. E em que diante do risco eminente de morte, onde as personagens e os operadores câmeras correm um risco evidente de acabarem também num dos inúmeros body bags que vão usando para recuperar os corpos daqueles que caem. Mesmo assim, há alguma poesia e sentido artístico neste filme sobre a banalidade da guerra.

Last Men in Aleppo é um dos 15 filmes considerados para o Óscar de Melhor documentário.

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