Janeiro 20, 2020
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A Promessa: uma fórmula feita com régua e esquadro

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A tentativa do genocídio do povo arménio pelo turcos no estertor do império Otomano é aqui captada pelo irlandês Terry George neste competente, ainda que esquemático e previsível relato. De certa forma, uma pecha que assalta inúmeros filmes de época, em que a vontade dos valores de produção até podem rimar com algum sentido estético, ainda que dificilmente consigam sair do colete de forças que ficam irremediavelmente presos.

Assim se passa com este trabalho do autor de Em Nome do Pai, escrito para a direção de Jim Sheridan e protagonismo de Daniel Day Lewis, sobre a confissão de um atentado do IRA não cometido, e Em Nome do Filho, já dirigido por si, invocando a memória da greve da fome de Bobby Sands, um prisioneiro do IRA, bem como O Boxeur, de novo para Sheridan e de novo com Day Lewis e de novo sobre o IRA. Entretanto, Terry George assinou e dirigiu ainda Hotel Ruanda, de 2003, ficando o bárbaro conflito étnico entre Hutus e Tutsis no Ruanda. Apesar da aparente distância, pode talvez dizer-se que existe aqui alguma coerência na injustiça e na defesa de povos subjugados.

Talvez Terry George fosse mesmo o homem indicado para o projeto, se bem que num filme alinhavado com régua e esquadro traçando o destino de um arménio (Oscar Isaac, num dos dois filmes que estreia esta semana – o outro é Suburbicon) que vai estudar para Constantinopla, futura Instanbul, nas vésperas do início da Primeira Guerra Mundial e da posterior perseguição do povo arménio. Assinale-se que parte do filme foi rodado em Portugal, durante o ano de 2015, mais concretamente em Lisboa e Sintra, com essa parte da produção entregue a Leonel Vieira.

Naturalmente, a ação acompanha um conveniente triângulo amoroso, entre Oscar Isaac, Charlotte Le Bon, uma dama arménia forçada a fugir, e Christian Bale, como um jornalista americano da Associated Press, empenhado em documentar o que via para memória futura e envolvido romanticamente com a personagem de Le Bon, que dividirá o seu coração com a personagem de Isaac. Ele que havia prometido casar com uma mulher e que usou o dote dela para pagar os seus estudos de medicina. Enfim, o resto é História. Até hoje negada pelo governo turco. Só que nada disso ajuda ao filme a ser melhor do que na realidade é. A Promessa até parece estar na linha de Doutor Jivago, o fresco de David Lean, mas fica a milhas de distância.

 

 

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