Junho 19, 2018

Ildikó Enyedi: “O amor é um sentido forte de comunicação”

Húngara Ildikó Enyedi entrega-nos um filme que nos cerca pela forma subtil como sugere uma narrativa romântica que desafia tudo o que já vimos. Talvez por isso tenha sido o preferido do júri do último festival de Berlim que lhe concedeu o Urso de Ouro pelo Melhor Filme da competição. Algo que é agora confirmado pela integração da lista restrita ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, em representação do seu país. Voltámos a estar com Ildyko, de novo em Berlim, mas desta feita nos Prémios do Cinema Europeu, onde a atriz Alexandra Bórbely recebeu o prémio de Melhor Atriz. Antes disso, a realizadora passou também por Portugal, como júri do Lisbon & Sintra Film Festival.

Existe uma enorme simplicidade neste jogo de almas que se tocam no mundo sensorial dos sonhos. E ao mesmo tempo, um rigor e sensibilidades gritantes que não viamos ou escutávamos há muito tempo. Seguramente, Corpo e Alma é um dos filmes do ano. Por isso mesmo não espanta que seja um dos pré-nomeados ao Óscar estrangeiro.

De onde lhe veio a ideia para esta história incrível?

Foi um ponto de partida divertido, em que duas pessoas partilham o mesmo sonho e acabam por se aperceber por mero acaso; depois tentam perceber o que devem fazer. Algo que acaba por gerar uma série de acontecimentos e interrogações. Foi esse o meu ponto de partida, uma ferramenta para fazer as coisas avançarem e colocar as duas personagens em situações em que teriam de testar os seus limites e tentar superá-los.

Pode dizer-se que há aqui um exercício sobre a solidão?

Há aqui uma experiência elementar, básica. Parte da solidão vem do facto de não sabermos como comunicar. Por isso escolhi uma história de amor, por ser a forma extrema de comunicação. É aqui que abrimos completamente a outra pessoa. E é assim que a outra pessoa nos vê. Diz-se que o amor é cego, mas eu acho que nos permite até ver com mais clarividência. Desde logo, permite-nos ver o melhor na outra pessoa. Através do olhar amoroso algo pode tornar-se realidade.

Temos portanto um filme sobre a comunicação?

Um filme sobre a comunicação em que o amor é um sentido forte de comunicação.

Será que consegue dissociar o cinema da arte no seu trabalho? Pergunto isto pelo seu background de artista visual. Pensa em arte quando filma?

Acho que não. Quando filmo tento ser muito exata, mas exata com o coração. E não tentando chegar perto de algum estilo ou de algo que quero atingir. Isso pode estar muito próximo da poesia, já que num poema temos de ser incisivos, pois de outra forma o poema pode não estar concluído. Mas há muitas formas de ações que necessitam dessa exatidão do coração. Mesmo o design de um objeto, cozinhar uma refeição ou mesmo escrever um artigo. Foi isto que sempre quis, ser fiel ao centro daquilo que quero. Mas fico sempre maravilhada com o ser humano.

Foi complicado encontrar este par de atores?

Por exemplo, o personagem principal, o Endre, é um amador. Percebi que queria um amador porque conheço quase todos os atores húngaros desta geração. Mas é difícil encontrar um ator amador com mais de 50 anos. No entanto, foi a minha única escolha. Quanto à Alexandra conheço-a desde que estudava teatro. Eu tinha o feeling de que ela não seria apenas uma boa atriz, mas antes uma excelente atriz. Ela é também muito diferente na vida e no trabalho. Ela consegue ser vulnerável e poderosa ao mesmo tempo.

De que forma a concepção do guião foi crescendo à medida que as situações se colocavam? Como foi esse processo?

Normalmente passo um ano com o guião, a escrevê-lo, reescrevê-lo. Neste caso, foi escrito em duas semanas, de rajada. Nessa altura, devo dizê-lo, dormia muito pouco. Foi um processo muito passional. A certa altura reescrevi o guião, mas foram apenas ajustes. Já não fiz grandes alterações.

Como trabalhou com o seu cameraman. Já tinha pensado no filme de forma visual?

Sim. Falamos muito sobre a ideia central do filme, e a forma de tentar exprimir algo com a luz, o formato, os diálogos. Ele (Máté Herbai) é um tipo fantástico, muito sensível, muito preciso. Sabia perfeitamente o que se passava em cada cena. A ideia não era criar um estilo, até porque acredito que se nos concentrarmos naquilo que é essencial e mais importante estaremos também a criar um estilo e não forçamos o material.

O filme tem vários contrastes, o dormir e o estar acordado, mas também o sonho, claro; o humano, o animal, o corpo e a natureza, e a alma. Importa-se de falar um pouco destes contrastes?

Pode haver alguns contrastes, mas não nos alimais. Vivemos numa fraternidade. Algo que às vezes esquecemos. Havia algo muito básico que estabeleci com o meu diretor de fotografia para distinguir os dois mundos entre a Endre (Géza Morcsányi) e a Mária (Alexandra Borbély), sem o tornar demasiado evidente. Por exemplo, ambos os apartamentos foram rodados em estúdio. O da Maria foi em ecrã verde com muita luz, espaçoso. Não nos faz lembrar pinturas hiperealistas, mas centra-nos no mundo. Queria que isso funcionasse no espírito. Por exemplo, foi muito difícil selecionar os direitos para todo o som.

Foi difícil o cast ou ja tinha a Alexandra em mente?

Não, demorei mais de cinco meses. Ela já tinha criado esta personagem. Há uma cena muito bonita no início do filme, quando eles se conhecem. Ela está à espera e quando vê um raio de sol que toca o seu pé ela desvia-se. Foi uma cena muito complicada e tivemos de parar tudo naquela hora precisa, entre as 12h20 e 12h40 para captar o sol da posição certa. Era essencial para a descrever dessa maneira. Há também um traveling muito bonito quando o Endre olha para ela. Mas são apenas 8mm – deve ser o traveling mais curto da história do cinema (risos).

Entre beldades húngaras: Alexandra Bórbely, a protagonista, e a sua tradutora

As cenas do matadouro são bastante contrastantes. Porque quis mostrá-las?

Quis contar uma história de amor que nos abrisse o coração. E se tivermos de coração aberto poderemos ser mais capazes de interpretar outras coisas que nos impedem de viver uma vida completa. E uma delas tem a ver com a crueldades com os animais.

É vegetariana, presumo?

Sim, mas nunca impus isso à minha equipa. No entanto, acho que o dia em que fomos ao matadouro foi um dos dias mais intensos da minha vida. E achei interessante todo aquele processo, com os trabalhadores que não são intelectuais e não fazem juízos de valor. Mas ainda assim percebe-se que existem momentos de alguma humanidade com os animais. É quase como aqueles rituais tribais, em que os caçadores caçam as presas, fazem o seu ritual e só depois se alimentam.

De que forma o seu trabalho como artista conceptual a ajudou a encarar esta aproximação singular do seu filme?

Não sei. Talvez. Mas nunca ninguém me fez essa pergunta. Talvez por isso não tenha muito receio da simplicidade, porque aprendi que tem um poder. É algo exato. Numa performance, apenas temos de escolher os materiais certos, sem complicar. Se tiverem a proporção exata tudo funciona. É essa a minha escola, por isso talvez por isso não tenho medo de trabalhar com amadores. Mas, obrigado pela pergunta.

Bom, e temos de falar do tema da Laura Marling. Para mim, foi uma revelação, não a conhecia…

Sim, é uma folksinger britânica. Começou a cantar quando tinha 16 anos. É também uma ótima poeta, na minha opinião. A sua suavidade, com uma pontinha de azedume foi aqui muito necessária. De outro modo poderia ser algo muito superficial que mataria todo o filme. Precisava do seu tom. É um abalada, tal como o filme.

Sobre Paulo Portugal 616 artigos
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