Setembro 20, 2018

Mike Goodridge: “Quero construir um público em Macau”

Mike Goodridge, o novo diretor artístico do Festival Internacional de Macau & Cerimónia de Entrega de Prémios, não é nada alheio ao cinema. Jornalista e crítico de cinema durante quase uma década, nomeadamente na prestigiada revista Screen, e CEO da produtora Protagonist Pictures, responsável por alguns dos mais marcantes filmes independentes, como American Honey, A Lagosta,  Lady Macbeth, Tom of Finland ou mais recentemente Florida Project, um dos fortes candidatos aos Óscares, passou desde maio passado a assumir o cargo à frente dos destinos criativos do festival de Macau. Isto após a súbita divergência criativa do anterior diretor artístico Marco Mueller, que se afastou pouco antes do início da primeira edição do certame.

The Florida Project

Durante a nossa entrevista em Macau, Goodrige assumiu que tem sido um turbilhão, especialmente tentar conseguir ter um programa pronto. Isto porque um dos seus objetivos principais era trazer o público ao cinema, uma das  maiores queixas da primeira edição, demasiado focada nos convidados e pouco nos espetadores. Se não há público, não faz sentido fazer um festival de cinema, sintetizou. É se fosse um festival apenas para trazer estrelas e cinema para desfilar na passadeira vermelha, argumentou, não estaria interessado.

Como foi esse compromisso de equilibrar a programação com filmes arthouse e outros mais comerciais?

Quando programei Paddington 2 para abertura disseram-me que não era um filme de festival. Mas é um filme ótimo e excelente para abrir um festival. Depois, claro que temos muitos filmes arthouse. Mas o cinema tem de ter esta variedade. Sobretudo aqui que existe um público muito jovem. Não é como em Lisboa que é uma cidade grande e cosmopolita. Esta é uma região muito pequena e com uma cultura cinematográfica mais limitada. Felizmente, temos a nova Cinemateca que tem menos de um ano. Depois temos cinemas antigos, ultrapassados. E é isto.

Sentiu que foi o seu lado de antigo crítico de cinema, na revista Screen, que o fez trocar um trabalho mais ligado à indústria por esta proximidade com o cinema do mundo?

Sempre fui um grande entusiasta de cinema e ser crítico de cinema faz parte de tudo isso. Entretanto senti que esse lado estava mais frágil e que a internet estava a tomar conta. Por isso decidi mudar de rumo. Entretanto tive a possibilidade de trabalhar na Protagonist, que me deu esse desafio de saber se conseguiria fazer os filmes que gostava. Foi uma linha de aprendizagem boa.

Mas agora também temos a Amazon e a Netflix…

Sim, estão a ditar novas regras. E a alterar o mercado. Por isso quando apareceu esta possibilidade interessou-me. Até porque iria lidar com o público pela primeira vez. E lidaria com a China, que é um mundo em si próprio.

Qual seria o seu principal foco na programação deste ano?

O principal desafio é que não existe uma indústria aqui. É estranho porque o dinheiro abunda. Fazem cerca de dois filmes por ano. Mas não há escolas de cinema, ou cursos de cinema. Ou uma Film Comisson. São sempre usadas  equipas de Hong Kong. Por isso mesmo quis que a competição fosse com primeiras e segundas obras. E não há assim tantos filmes bons de primeiras e segundas obras Havia alguns em Veneza, Cannes e Berlim. Ou Locarno. É esse o desafio, de procurar filmes que tenham um gancho e nos prendam a atenção. Temos, por exemplo, dois filmes muito interessantes que vieram de Veneza, como o Foxtrot (vencedor do Melhor Argumento, para Samuel Maoz, também realizador) e Jusqu’à La Garde ou Custody, de Xavier Legrand, considerado o Melhor Realizador e a Melhor Revelação para Thomas Gioria.

Relativamente ao mercado asiático, poderá ser uma opção de futuro?

Sim, é o que estamos a pensar. Fazer uma secção separada. Mas para já ainda não há nada concreto.

Como posiciona este festival neste lado do mundo onde existe já a concorrência de Busan, Tóquio, Índia, ou Shangai?…

Em primeiro lugar, trata-se de um pequeno festival. Diria, sem ser condescendente, que somos um festival mais próximo do público. Tentamos programas filmes arthouse que possam ter essa abertura. Por exemplo, quisemos mostrar aqui A Fábrica de Nada, não só porque é o melhor filme português do ano, mas também porque existe essa proximidade com a comunidade local.

E tem também a apresentação do novo filme do Ivo Ferreira, certo?

Sim, mas também sabia que não poderia ter aqui a estreia mundial de Hotel Império. Até porque o Ivo provavelmente irá levá-lo a Berlim, já que tem uma boa relação com eles e eu não posso nem quero competir com Berlim. E teve outro projeto no nosso Project Market. É uma pessoa muito ligada ao festival.

Mike Goodridge, Su Chao Pin, Michelle Yeoh, Alexis Tam, Maria Helena de Senna Fernandes, Presidente da Comissão Organizadora do IFFAM e do Turismo de Macau, Cecilia Tse e Alvin Chau

Qual será o seu plano para os próximos anos?

Quero construir um público em Macau. Isso para mim é fundamental. Mas também sei que isso leva o seu tempo. Algo que também atrai cineastas e público que quer ver um evento que é popular e local. Por outro lado, uma uma comunidade local que é necessário encorajar. Programámos quinze curtas de cineastas de Macau e financiámos duas delas. Por sinal, filmes bastantes interessantes. E estamos a pensar fazer outros programas ao longo do ano.

Lembra-se do filme que o fez nascer para o cinema?

Hmm, pergunta difícil. Provavelmente, Tubarão, do Spielberg. Quando era garoto fiquei obcecado pelo filme. No fundo, é isso que queremos fazer aqui. Seduzir as pessoas pelo cinema e fazê-las voltar de novo.

 

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