Outubro 31, 2020

A Hora Mais Negra: finalmente o Óscar para Gary Oldman

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No ano do Brexit fomos já brindados com diversas variantes do mais célebre discurso de Churchil a defender a Europa invadida pela ferocidade nazi. Faltava-nos a versão Joe Wright (que é a melhor também) a refletir a ascensão política do Primeiro Ministro britânico empenhado a conduzir a Grã-Bretanha na sua hora mais negra e nos destino da 2ª Guerra Mundial. Ao ver o filme percebe-se que é o papel e essa transformação radical que dificilmente deixará de atribuir o Óscar de interpretação a Gary Oldman pela prestação homérica em A Hora Mais Negra.

Mérito para a habilidade de Wright a dominar as diversas cambiantes do filme, fazendo-nos acreditar que a guerra de bastidores e gabinetes era travada com o mesmo entusiasmo que o conflito no terreno. É aí que se concretiza o rigoroso trabalho do argumento de Anthony McCarten, o harmonioso jogo de luz e sombras da fotografia de Bruno Delbonnel e, até mesmo, banda sonora discreta e eficaz de Dario Marianelli, bem distante do excesso irritante de Hans Zimmer, em Dunkirk.

O filme decorre durante os dias decisivos entre 8 de maio e 4 de junho de 1940, durante o período em que a cúpula do governo britânico oscilou entre a defesa parlamentar, promovida por um eficaz Ronald Pickup a compor o desgastado Neville Chamberlian e do Lord Halifax, em adequado registo de Stephen Dillane. Em ambos os casos, um notável trabalho de interpretações secundárias. Como acontecera já no telefilme Their Finest, a secretária do exigente Winston cabe agora a Lily James, num registo muito cumpridor. Uma palavra ainda à irrepreensível Kristin Scott Thomas, no papel da esposa empenhada Clemmie.

Se formos a ver bem, do ponto de vista narrativo, esta incursão de Joe Wright sobre um dos episódios marcantes da presença britânica na 2ª Guerra Mundial até nem trás nada de novo. Embora a extrema classe com que o cineasta britânico confere a cada detalhe, tratando este filme como se fosse um fresco histórico, acaba por conferir ao documento um peso significativo. Desde logo pela escolha do cast muitíssimo bem preparado para o que era pedido e ultrapassando assim o peso habitual que têm estas incursões históricas.

Não vão faltar comparações à versão de Wright e Nolan sobre o mesmo evento histórico, desde logo pelas diferentes opções de tratamento dramático, em que Nolan privilegia a ação, centrando-se na tropa, ao passo que Wright afirma-se pelo contexto e peso narrativo e desenvolvimento político. Mesmo quando nos dá um episódio ficcionado, arriscado até, mas conseguido, em que Churchill vai sentir a pulsação do público e perceber se estaria preparado para assumir esse supremo desafio, interrompendo a sua viagem para Westminster para se misturar com o povo numa comovente viagem de metropolitano. Igualmente relevante é a postura soberana de Ben Mendelsohn a assumir uma cumplicidade na decisão de Churchil, ele que esperamos que esteja na short list das listas de distinções aos papéis secundários.

Poderia até pensar-se que tudo gira em redor da pujança de Oldman, mas não é tanto assim. Mesmo com um ator desfigurado numa personagem que não é nada evidente, o resultado impressiona. De tal maneira que numa vasta galeria de representações de Churchill, esta passará agora a ser referência. Mesmo depois do esforço muito aceitável de Brian Cox em Their Finest. No entanto, Wright não nos apresenta um Churchill imaculado, pelo contrário, é o homem acossado pelo desaire da batalha de Gallipoli, na Primeira Guerra Mundial. Ele que mudará essa opinião com o discurso em que proclamará a célebre frase “will never surrender!”

A Hora Mais Negra estreia em Portugal a 11 de janeiro.

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