Dezembro 10, 2018

Gabriel Abrantes sobre ‘Diamantino’, a sua primeira longa: “Não é bem inspirado no Cristiano Ronaldo”

Gabriel Abrantes tem um cinema ousado, provocador e sensual. Em que a imagem em movimento se funde com as artes plásticas, a História, a Filosofia… É talvez dos cineastas portugueses aquele que mais arrisca para além dos formatos, desafiando géneros e superando barreiras conceptuais. A curta Os Humores Artificiais é uma pequena obra-prima que nos atrevemos a catalogar, ainda que de forma provocatória, como uma romcom futurista e fascinante. Foi uma das nomeadas aos Prémios do Cinema Europeu, anunciados sábado passado, não venceu, mas convenceu. Agora Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt já se podem concentrar em Diamantino, a sua primeira longa. Sobre a magia de um futebolista sobredotado, de brinco na orelha. Mas não é o Ronaldo…

Apesar de ser muito jovem, com apenas 33 anos, Gabriel já conta com quase duas dezenas de filmes, curtas metragens em que exerce uma pesquisa das suas raízes, de um eu que não é muito evidente e que se esbate nos diversos ambientes que cruzou e estudou. Porque Abrantes é também, para além de artista plástico, cineasta, ator, produtor, é também um estudioso. E, neste caso, o todo é mais do que a soma das partes.

Falámos com Gabriel em Berlim, duas horas antes da cerimónia dos 30ºs EFA.

Como surgiu a ideia de Os Humores Artificiais?

Tenho estado muito interessado em comédia e em géneros populares, que não são consagrados, mas que são sérios. Estava também a estudar filmes, como os do Lubitsch, as comédias românticas do Preston Sturges ou do Howard Hawks; entretanto eu e o Daniel (Schmidt) estávamos já a trabalhar na longa metragem na longa metragem O Diamantino e falávamos muito sobre estas comédias românticas. Para além disso, estava também muito interessado em inteligência artificial. Pareceu-me interessante juntar dois conteúdos de forma e tentar indagar se a comédia poderia ser a última fronteira, e se a poderia conciliar com a inteligência artificial. Interessou-me neste processo também a comédia indígena e as piadas que se trocam em família. Daí a ideia do robô, o Andy Coughman, a personagem principal, numa aldeia indígena. Só que ao tentar criar laços nessa aldeia. Algo corre mal, porque ele apaixona-se. E aí cria-se o drama.

Sim, acho que esses elementos funcionam muito bem. Até porque na tua arte e no teu cinema existe uma colaboração de elementos, de géneros e estilos. Algo que parece estar inato em ti. Será pelo facto da tua vida estar associada diferentes culturas e geografias? Desde logo a herança dos teus pais (mãe angolana e pai zairense), o facto de teres nascido nos Estados Unidos e de trabalhares em diversos pontos da Europa. Achas que isto afeta o teu trabalho?

Acho que o meu percurso, por ter nascido nos EUA, e por ter vivido na Bélgica, em Portugal e depois da universidade voltar a Portugal para tentar trabalhar e fazer filmes, enformou muito como vejo a cultura e os géneros. Nos EUA era sempre visto como um emigrante português e em Portugal sou visto como um emigrante dos EUA. Esta personagem do Coughman consegue inserir-se em todo o lado, pois também não pertence a lado nenhum. Por outro lado, o meu trabalho e o meu cinema tem muito a ver com a fundação das mitologias tradicionais, sobretudo nos EUA. Temos o caso do Birth of a Nation, do Griffith, bem como toda a máquina de Hollywood que funciona como uma forma de propaganda americana e capitalista. Por isso, fui tentado a pensar no cinema que já não pertence aos EUA, ou português ou fancês. Mesmo o formato dos European Film Awards já é m pouco as all stars de cada país. Mas acho que como sociedade devíamos ultrapassar essa noção, a noção de fronteira nacional, seja como entidade ou característica comum. Acho que os meus filmes falam um pouco sobre isso, talvez por ser muito enformado pela vida que vivi.

Consideras então mais como um português, cineasta, artista, cidadão do mundo?

Não sei, acho que esses são rótulos ou modos de indexar artistas por empresas de marketing, jornais ou até o próprio governo que tem interesse em identificar como nacional, para exportação ou fácil compreensão. Por exemplo, o Almodóvar é visto como um realizador espanhol, pois representa um pouco da identidade espanhol. Mas as coisas não são bem assim. Ele tanto pode ser isso, como um representante do cinema queer. Por outro lado como cinema queer não é tão representativo de Espanha. Quando começamos desconstruir as coisas percebemos como a identidade nacional se dissipa. Como é que me vejo? Vejo-me como um artista, como um realizador, embora interessado em problemas correntes, como a A.I., a proteção dos direitos indígenas, dos direitos ecológicos. Depois tenho também a minha maneira louca, cómica, satírica de brincar com esses conteúdos. Mais do que exprimir uma identidade nacional.

Lembro-me de ler uma entrevista tua em que dizia mais ou menos algo como isto: “na minha arte pretendo ser uma representação de um futuro”, no fundo, algo que vemos concretizado em Os Humores Artificiais, não achas?

Sim, eu estou sempre a tentar pensar em questões estéticas, novas formas de pensar; como é que o visual, seja filmes ou pinturas, nos possam dar algum conforto, seja pela novidade estética, que nos força a questionar, ou como as grandes obras que quebraram com os moldes, como o urinol do Duchamp e certos filmes que nos forçam a ver o mundo como algo diferente, uma ruptura estética.

Nesse sentido, lembras-te de algum filme que te tivesse perturbado e motivasse também a criar através das imagens?

Durante muito tempo, a influência mais pesada no meu trabalho foi com o Pasolini. Não só pelo lado político dos filmes dele, mas também pela estética que tiveram em mim um enorme efeito de surpresa. Mas também quando vi em Portugal O Fantasma (do João Pedro Rodrigues), ainda quando estava na universidade, foi um filme que me chocou muito pela simplicidade e austeridade da imagem, depois misturado com um conteúdo bastante agressivo, sexual, sensual e transgressor. Isso pareceu-me uma ideia bastante nova. Os filmes que gosto mais são aqueles que me provocam alguma surpresa.

Podemos dizer que na tua obra, a representação do sexo é algo que está em transição, não é totalmente definido. Não sei se concordas.

Sim. Irritavam-me um bocado aqueles filmes que tinham a sex scene, ou autores como o Philip Roth ou o John Updike, que vêm de um lado misógino e elitista de universidades americanas, que era uma coisa que me repugnava um bocado. Mas num livro que adorei a linguagem era um bocado satírica sobre sexualidade, que era o Gravity’s Rainbow, do Thomas Pincheon, em que as atividades sexuais amorosas do protagonista faziam com que bombas e mísseis alemães caíssem em Londres em determinado sítios onde ele fornicava. Gosto dessa ideia burlesca ou carnavalesca do sexo e o poder, como uma metáfora para algo maior.

Falemos então de Diamantino, a tua primeira longa. Foi um processo algo longo, teve mesmo um outro nome. Podes descrever um pouco essa evolução? Encaras este filme como uma evolução e continuidade daquilo que tens feito?

O Diamantino é um filme em que estou a trabalhar há cinco anos, com o Daniel Schmidt que trabalhou comigo em The History of Mutual Respect e Palácios da Pena. O processo de fazer a primeira longa é por vezes um processo algo lento. Eu já tinha rodado umas 15 curtas metragens quando comecei, agora terei umas 20, ou qualquer coisa assim. Apesar de tudo, a escala e a estrutura é muito diferente, bem como a quantidade de pessoas com quem temos de colaborar, nomeadamente produtores, que faz com que o processo seja um bocado mais lento do que estou habituado. Normalmente, faço umas duas curtas por ano, mas com uma longa em cinco anos já foi um processo muito diferente.

Quem é o protagonista?

O protagonista é o Carloto Cotta. Já tinha trabalhado com o Carloto várias vezes e adoro. A intensidade do trabalho com um ator com esse talento, mas com uma tela do tamanho de uma longa, que dá para elaborar mais ideias e uma proximidade emocional com a personagem principal. Acabou por ser um grande salto. As minhas curtas operam um espectro muito fechado. Uma das grandes influências do meu trabalho era o Bresson, aquela ideia dos atores quase automáticos, sem emoções. Na longa queria mudar um bocado isso e acho que o Carloto e toda a sua expressividade fez realmente a diferença entre este filme e os precedentes.

Quanto à história, trata-se de um futebolista, tanto quanto sei com algumas referências ao Ronaldo…

Não, não tem. O filme não é bem inspirado no Cristiano Ronaldo. Tem referências a ele, mas como a quaisquer outros futebolistas. Por exemplo, o cabelo curto, o brinco na orelha, etc. Foi inspirado em dois textos do David Foster Wallace, um autor americano dos anos 90 e 2000. Ele escreveu sobre ténis e a relação do génio estético e desporto. Por exemplo, na Renascença as pessoas ficaram muito fascinadas com a capacidade técnica do Da Vinci e do Miguel Ângelo que pareciam quase sobrenaturais, faziam algo que quase todos os humanos não conseguiriam fazer aquela obra perfeita. Hoje em dia com o lado técnico das artes muito menos em evidência, como a arte conceptual, a arte minimal, já não há esse choque de uma coisa humana ser praticada por um humano. Isso transferiu-se um pouco para o desporto. Quando se vê um desportista a fazer algo impossível pela maior parte de nós, cria essa possibilidade e esse ato estético. Pegámos então no desportista como uma metáfora para a estética de hoje. E exploramos ainda a análise do que proporciona isso, do que está por detrás da máscara que cria este eventos divinos.

O filme poderá estar a ser selecionado para algum festival internacional? Berlim, por exemplo, ou mesmo Cannes?

Não, não. Ainda estamos a trabalhar e não fechamos a montagem. Por isso ainda irá demorar. Não estamos a colocar essa pressão em nós próprios. Isso muitas vezes é contraproducente. A nossa lógica é acabar o filme e depois logo vemos.

 

Sobre Paulo Portugal 693 artigos
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