The Post: mais importante que ‘Os Homens do Presidente’ e ‘O Caso Spotlight’

Spielberg volta a tocar as notas mais altas com um portentoso filme sobre o poder do jornalismo de investigação e a liberdade da imprensa. No caso, o papel do Washington Post no desfecho do escândalo Watergate. Claro que é Spielberg a fazer um cinema clássico, mas num resultado que supera não só os seus filmes recentes e mais sérios, como A Ponte dos Espiões e Lincoln, como também mesmo Os Homens do Presidente, igualmente sobre o jornalismo do The Post, O Caso Spotlight, vencedor do Óscar de Melhor Filme há dois anos atrás.

No cerne está a publicação dos documentos oficiais e secretos conhecidos por ‘Papéis do Pentágono’, evocando um passado histórico de sucessivas administrações americanas que esconderam a humilhação da inevitável derrota no Vietname, contida em relatórios oficiais que davam esse desfecho como inevitável. Agitam-se assim as almas de sucessivos presidentes que subscreveram políticas danosas apenas para salvar a face. De Truman a Kennedy, passando por Eisenhower e até Lyndon Johnson, dando a necessária luz às políticas efetuadas em segredo e apertado controle político.

The Post é assim uma pequena obra-prima que não falha a missão e responsabilidade de ser um filme alavancado no passado, mas  igualmente focado no presente, deixando mesmo espaço, para quem desejar, para uma eventual aproximação à atual administração Trump e até aos recentes escândalos misóginos que assolam Hollywood e que motivam um verdadeiro woman power. Por isso mesmo, The Post é o filme certo na hora certa.

Mesmo que se trate de um filme com estreia americana, prevista apenas para 18 de janeiro – embora com um lançamento reduzido a 22 de dezembro, apenas para se poder qualificar para os Óscares – percebemos de imediato o seu imediato potencial assim que recebemos a oportunidade de um visionamento antecipado “para a nossa consideração”.

Este é também um Spileberg em modo Capra que saudamos, e que toca fundo ao saudar os valores da liberdade da imprensa, abordando a bolha que cresceu e explodiu com o Watergate. Aliás, voltamos a 1971 em 2017, até porque é aí que o filme acaba, podendo então ser encarado como uma verdadeira prequela.

Há muito para gostar em The Post. Desde o ambiente fumarento e o caos controlado vivido nas redações dos grandes jornais é desenhado de uma forma notável, fazendo ecoar o contínuo matraquear das antigas máquinas de escrever; sentimos também o nervoso miudinho à espera do deadline para por em marcha as rotativas, após o trabalho dos topógrafos.

Seguramente, uma visão nostálgica de um mundo hoje dominado pelo digital, pelo social network, ou seja, pela imprensa imediata e quase individual. Nesse sentido, a leitura da sentença final (passe o spoiler), já no final do filme, curiosamente é emitida pela secretária de redação ao telefone para toda a redação, é talvez o zénite mais Capra do filme quando se escuta o credo da imprensa que “a imprensa foi feita para servir os governados não os governantes”.

Notável o guião de Liz Hannah, de apenas 31 anos (co-produtora de Hitchcock/Truffaut, de Kent Jones) e Josh Singer (curiosamente, o argumentista de Spotlight). Mas apesar de ter sido concebido durante a administração Clinton, esse hiato de tempo acabou por o favorecer e conferir um adorno bem mais adequado a estes novos tempos. Não de Nixon, mas de Trump. Ele que tanto se tem insurgido contra a imprensa, sem contar com as alegadas maroscas com os russos e até a um passado recente, anterior à atual administração, em que  supostas armas de destruição maciça motivaram a entrada dos EUA numa guerra com o Iraque. Enfim, mas isso já são leituras laterais.

E há também o woman empowerment veiculado por Meryl Streep a receber um novo papel à medida do seu talento, e com o condão de lhe motivar uma decisão dilacerante, de certa forma a fazer-nos lembrar A Escolha de Sofia (que lhe daria em 1983 o seu primeiro Óscar de Melhor Atriz, já depois de receber, em 1980, o de secundária em Kramer Contra Kramer).

Cabe-lhe a personagem de Katharine Graham, editora do jornal Washington Post, um negócio de família que geriu durante todo o período que iria culminar no escândalo Watergate. Com a rara possibilidade de levantar a voz feminina num mundo de fato e gravata, essa mesma personagem volta a coloca Meryl na rota de nova nomeação (na verdade já lhe perdemos a conta).

Também Tom Hanks, igualmente inspirado num dos seus grandes papéis (também ele de consideração para o respetivo prémio interpretativo) a exaltar esse lado febril do jornalismo, em outra personagem de inspiração ‘Capriana’, talvez mais próxima de um Cary Grant do que de James Stewart, talvez o ator mais próximo desse universo profundamente americano.

É claro que este tema desta magnitude poderia queimar as mãos de um realizador menos experiente. Mas Spielberg, numa produção conjunta da FOX e Dreamworks, soube transportar a bandeira dos tradicionais valores americanos. Algo que faz de uma forma muito convincente, graças ao tal guião urdido com pinças e articulado com uma montagem elegante que combina e funde de forma orgânica as diferentes ações e conversas paralelas. O estilo é subtil e discreto, próximo até do estilo televisivo de House of Cards ou mesmo da mais antiga The West Wing, combinando a eficácia dos planos e os subtis records num cinema verdadeiramente excitante.

Proibido será esquecermo-nos de um enorme Bob Odenkirk, claramente a fazer a ponte para o cinema depois da explosão em Breaking Bad num papel que levaria depois para Better Call Saul, a dar a cara e a alma ao verdadeiro espírito do jornalismo aventureiro, por certo também com lugar cativo na cerimónia dos Óscares. Ele que dirá a certa altura I always wanted to be part of a small rebellion…

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