Robin Campillo: “Percebi que sentiam que o tema sida era impuro para o cinema”

Robin Campillo dirá essa frase incómoda durante a nossa conversa, em San Sebastian, onde revemos o filme depois de ter sido aplaudido em Cannes e de ter recebido o Grande Prémio do Júri. Talvez por este “incómodo” da doença afetar aquela franja marginal que juntava homossexuais, toxicodependentes e prostitutas no mesmo saco e lançar aquilo que Campillo também recorda como uma “maldição”. Terá sido esse o receio, a “impureza” de adiar o projeto até a espera se ter tornado insustentável? Essa foi a premissa em que circulou na nossa entrevista em que um Robin visivelmente empenhado se abriu num turbilhão de palavras que tivemos de selecionar. É assim a sua urgência. Leia aqui a crítica ao filme.

O filme aí está, a entrevista também.

 

Paulo Portugal, em San Sebastian

Foto (abertura): Paulo Portugal

Caro Robin, a pergunta impõe-se: porquê só agora este filme? Ficamos com a sensação de que poderia (e deveria!) ter sido feito antes…

Acho que por falta de tempo… Bom, vou tentar responder de forma rápida, embora seja um tema algo complicado, se quiser ser honesto. Passei 10 anos da minha nesta luta. Em 82, tinha 20 anos, como um jovem que sempre quis ser realizador. Vi o meu primeiro filme aos seis meses, com a minha mãe num cinema ao ar livre. Por isso acho que nasci com o cinema. Entretanto chegou esta epidemia e logo se cruzou na minha mente a possibilidade de ser realizador. Tinha tanto medo com o que se passava, porque se dizia que todos os homossexuais iriam morrer, tal como os toxicodependentes e as prostitutas, mas as especial mente os gays.

Era uma espécie de maldição…

Sim, isso. Uma malédiction. É como dizer que algo que vai ser mau para alguém. Estávamos em 83, na altura em que conheci o Laurent Cantet (com quem haveria de escrever A Turma, Palma de Ouro em 2008, e Foxfire – Raposas de Fogo, em 2012). Foi nessa altura que também comecei a escola de cinema. Mas percebi também que todo o cinema que gostava – da Nouvelle Vague a Bresson e outros – não conseguia explicar-me o que se estava a passar. Percebi que sentiam que o tema sida era impuro para o cinema. A única exceção foi Cléo de 5 a 7 (Duas Horas na Vida de uma Mulher), que já em 1962 falava do medo das doenças. Estranhamente um filme feito por uma mulher (Agnés Varda).

Entretanto foi para a Act Up, certo?

Sim, fui em 1992. Era uma base militante e fiz o que pude. Foi algo que mudou a minha vida e aprendi muito. Tínhamos de escrever, fazer posters. Reinventei-me completamente.  Depois tentei escrever um guião sobre a sida, mas percebi que não era um objeto de cinema. Entretanto percebi que estava a olhar o mundo através dos óculos deste grupo. E o que era importante para mim era este mundo em metamorfose, pessoal, e um objeto de cinema. Entretanto preparava o meu filme Eastern Boys (2013), com dois produtores, em que um deles, a quem eu tinha vestido o seu namorado quando ele morreu, me fez pensar neste projeto. Depois, a a minha produtora convenceu-me a avançar com esta ideia sobre os tempos da Act Up. Foi assim que comecei.

Sentiu que antes não teve esse tempo de maturação, foi isso?

Estava num estado tal de anestesia que senti precisava de me sincronizar. Isto do ponto de vista emocional e enquanto realizador. Fico com a sensação de que é possível viver uma vida inteira e não sentir nada. A personagem do Nathan é alguém que sente a falta do seu primeiro namorado. Ele está a re-sincronizar-se para esta nova emoção Isso é algo muito importante. Do meu ponto de vista é essa necessidade de regressar ao passado, porque está tudo turvo.

É interessante colocar essas discussões no filme no meio de uma sala de aula. Pergunto se não haverá aqui alguma relação, mesmo que distante, com A Turma

(risos) Ainda bem que pergunta isso. Na realidade tudo se passava num anfiteatro. De certa forma, talvez inconscientemente, acho que este anfiteatro é também um teatro ou uma sala de cinema com um ecrã a negro.

E imagino que tudo se passava de acordo com aquelas regras de comunicação…

Sim, eu tive uma conversa com o Didier Lestrade, que criou o Act Up em Paris. E ele contou-me que pensaram nesse sistema durante meses porque sabiam que iriam estar numa sala com uma centena de bixas (di-lo de forma carinhosa) que iriam falar, falar… O sistema foi criado especificamente em França para assegurar que todos poderiam falar. Isso ajudou muito, porque às vezes a democracia acaba por tornar-se num caos.

Como vê este filme hoje, apesar de ser sobre acontecimentos que ocorreram já há alguns anos? Acha que mesmo hoje pode ser alguma ressonância para os dias de hoje?

Na verdade, pergunto-me porque não existe hoje tanta mobilização? Todos sabemos o que se passa com os nossos governos, mas porque será que estamos paralisados do ponto de vista político? É claro que não fiz este filme para responder a estas questões, fi-lo porque tinha de o fazer. E percebo que ao fazê-lo existem muitas diferenças entre o momento do filme e hoje. Por exemplo, temos a internet, onde vários amigos meus reivindicam essa energia e crítica ao sistema, às fronteiras, aos emigrantes. Mas é isso. Ficam-se apenas pela internet. É mau porque acho que temos de construir os discursos entre as pessoas. Em França, o filme está a correr bem, fizemos muitas projeções e muitas pessoas vêem ter comigo e perguntar-me o que pode fazer. O que é digo é que se fazem a pergunta é porque já é tarde demais.

 

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