Rosso Vivo: Muito mais que um clube

A curiosidade despertada em Another Lisbon Story fez-nos chegar a Rosso Vivo, o filme que Claudio Carbone fez de seguida. Apesar da diferente latitude, língua e tema, nota-se a mesma espinha dorsal que dá dimensão e espessura ao seu cinema de causas. Desta vez com a parceria com uma equipa de rugby que o cineasta acompanha por dentro. De resto, um clube em que o próprio Carbone chegou a jogar quando saiu da sua terra em Anzi, no sul de Itália, e veio morar para Roma.

Pelo início fulgurante e eufórico, com câmara subjetiva de um jogador que se levanta para seguir para o treino de vespa poderia pensar-se numa narrativa tipicamente desportiva de relato confessional. Mas não, depressa percebemos – já o sabíamos! – que o elemento social, comprometido estaria mesmo ao virar da curva. No caso, o significado particular deste clube, herdeiro de uma tradição política fortíssima, anti-fascista, comunitário e familiar. Nesse sinal, Rosso Vivo é mesmo muito mais do que um clube.

Percebe-se até como a construção e evolução da trama está bem mais perto de Another Lisbon Story, com os diversos testemunhos de jogadores unidos por causas sociais e políticas. Sim, os stletas e simpatizantes do clube da estrela vermelha partilham um verdadeiro modo de vida.

Em pouco mais de dez minutos, fica estabelecida a estrutura do documentário. Do incentivo do treinador no balneário ao aquecimento, passando pelos fãs nas bancadas, mas também as ocupações, as manifs de bairro clamando pro direitos humanos mesmo em ritmo hip hop. De certa forma, destes agregados sociais de Roma conseguimos também vislumbrar as reuniões dos moradores do Bairro da Torre, em Lisboa. Até quando uns pintam o campo de relva verdadeira e os meninos da rua ajudam a construir o campo de futebol pelado. Sem nunca perder o lado festivo.

Rosso Vivo poderia ter sido uma brava curta metragem, talvez com uma energia ainda mais concentrada, já que alguns depoimentos apenas alargam aquilo que já estava fixado antes. Mas há uma história de causas pelo meio que já não se perde. Um pouco à maneira de Gianfranco Rosi. E, nesse sentido, um passo em frente, de maior maturidade, depois de Another Lisbon Story. Talvez por isso esta é uma hora de energia catalisadora que se vê sem que o ritmo se perca. Sim este é mesmo um profondo rosso.

Sobre Paulo Portugal 454 artigos

Insider

Cinema, festivais, entrevistas e críticas.
E algo mais.

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.


*