I Love You Daddy: afinal de contas não seremos todos pervertidos?

Louie, Louie, Louie, Louieeee….. Assim nos embala o genérico da série  Louie, a rubrica de humor visceral, exibida no canal FX, muito personalizado e centrado no seu criador, produtor, montador e protagonista Louis C.K., o mesmo nome que tem andado nas bocas do mundo, desde que o mundo se virou contra si sob a forma das acusações de comportamento indecoroso. Agora tudo o que era humor direto, provocador e ousado surge agora com uma leitura bem mais realista em I Love You Daddy, no seu regresso ao cinema, dezasseis anos depois, no tal filme cuja estreia americana foi cancelada, mas que a Leopardo Filmes, de Paulo Branco, acaba de lançar no nosso país, poucos doias depois da passagem no Lisbon e Sintra Fim Festival. Bem feito!

Infelizes aqueles que não puderem desfrutar deste saboroso bombom que imita a arte e a vida de uma forma superior. De resto, algo de que C.K. sempre se alimentou com inegável talento e que aqui nos é servido como uma leitura suplementar, mesclando o ritmo da série com um perfume de clássico das screwball comedies os anos 30 e 40, em que o próprio Louis C.K. assina o tema original que dá também nome ao filme, a coroar esse feitiço do tempo. Mas também uma aproximação ao ambiente urbano em estilo Woody Allen e uma piscadela de olho a Manhattan, nem que seja para justificar a opção do preto e branco.

Louis sempre foi um autor bastante explícito. Até mesmo quando diz que “nunca mostrei o meu pénis a uma mulher sem pedir primeiro”, na resposta assumida às acusações de masturbação de que foi alvo. Não que aqui o faça, naturalmente. Ainda que no papel do produtor de televisão de sucesso Glen Topher se assuma ao gozar o prazer de receber luz verde para uma nova série de episódios. E com a partilha habitual do à vontade do humor bem masculino a cargo do amigo e ator Ralph (Charlie Day, um dos Chefes Intragáveis, de 2011), que se atira para uma hilariante cena de masturbação simulada no momento em que Glen recebe a notícia da visita ao escritório da vedeta para hipótese de protagonizar a série.

Mas isso não é nada, comparado com a titilante história da relação dele com a filha, China (numa interpretação de lolita provocante por Chloe Grace Moretz), que sempre o brinda com um doce e castrador de autoridade ‘I love you daddy”, possibilitador de toda a liberdade. O nível de insinuação torna-se ainda mais elevado com a entrada em cena de um insinuante e arrebatador John Malkovich, completamente à vontade no papel de um realizador de culto conotado como predador sexual com predileção por raparigas novas.

I Love You, Baby  é isto, claro, e não só, mas muito mais também. É sobretudo um filme sem receio de abordar as questões e tabus de frente, de resto um apanágio de C.K. Agora, impõe-se a questão: saberemos nós separar às águas entre a realidade e a arte? Mesmo que no caso de Louis C.K. essas coincidências sirvam agora para o crucificar. Ele que nem rejeita sequer mo filme a fraqueza da sua própria personagem ao ficar confundido e perturbado com um passe de sedução da amiga da filha. É por estas linhas que se cose o humor cru e saboroso de C.K. Mesmo num período em que todos os excessos de masculinidade serão punidos com uma espécie de pena capital artística. Mas dentro deste tom, não seremos afinal de contas todos pervertidos?

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