Pedro Cabeleira – “Verão Danado foi um filme para me descobrir como realizador”

(entrevista publicada originalmente a 3 de Agost0, durante o festival de Locarno)

A vida do cineasta que sonhava ser jogador de futebol e que quase foi estudar economia mudou quando a mãe lhe ofereceu 1000 euros para fazer o filme. Assim ficaram para trás as comédias românticas de Ben Affleck e Jennifer Lopez e a fantasia de O Senhor dos Anéis, para nascer um cineasta muito mais preocupado em perceber o mundo em que vive e fazer um cinema que traduza o que lhe vai na alma. Verão Danado é esse filme.

Fomos encontrar Pedro Cabeleira na produtora Videolotion, num hub criativo lá para os lados da Mouraria. A conversa era para ser prática e certeira. A ideia era não perder tempo. Saímos de lá mais de uma hora depois, depois de discutirmos cinema e abordarmos, por exemplo, o papel que a família tem na sua vida. Cabeleira foi mesmo ao Entroncamento dois dias antes de viajar para Locarno, pois a família está em primeiro lugar, como nos confessou com naturalidade. Até porque acaba porque poderá estar mais presente no seu próximo projeto, centrado no Entroncamento. Mas com orçamento.

Verão Danado estreia em Portugal no dia 30, com distribuição da FilmIn de Stefano Savio.

 

Parabéns pela seleção para Locarno. Como recebeste a notícia?

Fiquei contente (risos). Eles já tinham o filme em consideração há algum tempo. Sabia que gostavam do filme, mas nunca fico com grandes expetativas. É sempre uma incógnita. O filme já tinha estado em short list para Cannes e para Veneza e acabou por não entrar. Fiquei contente, acima de tudo, porque é um primeiro passo para poder mostrar o filme.

Sobretudo por um filme quase sem orçamento. Como foi esta viagem até chegar aqui? Como é possível fazer filmes sem dinheiro?

É possível fazer-se filmes sem dinheiro, mas não acho que seja saudável. Mas só posso falar do caso do Verão Danado e de alguns colegas que também tiveram de trabalhar assim. Mas também não foi totalmente sem dinheiro. Os meus pais deram-me mil euros para fazer o filme.

Olha, isso já é um bom título… (risos)

Sim. Eu também tinha guardado mais 600 euros de um trabalho que tinha feito.

É bom sentir o apoio dos pais…

Eles também me foram ajudando com a renda e com o passe quando estava aqui em Lisboa. Trazia também a comida da minha mãe no tupperware. Safa-se muito dinheiro assim. Agora, isso também é bom, porque dá-nos capacidade de encaixe para os projetos futuros. Isso é bom para quem acaba a Escola de Cinema e não tem outra possibilidade. Mas já não consigo fazer mais nenhum filme sem dinheiro.

Então já temos os mil euros da mãe e os 600€ do trabalho. Foi este o orçamento do filme?

Sim, foi isso. Esse dinheiro foi exclusivamente para pagar viagens ou deslocações para quem não tinha passe de metro. O equipamento era da Escola e a câmara era emprestada de um amigo meu, o Vasco. E comprei um shoulder mount na Optec, porque sem isso não conseguia fazer o filme. Depois os atores, ninguém estava a ser pago.

O trabalho de câmara foi sobretudo a Leonor Teles ou tiveste mais ajuda?

Foi a Leonor os dias quase todos. A fotografia do filme é dela. Só dois ou três dias que ele não conseguiu ir, mas na montagem final só a cena do jogo na PlayStation é que ficou, foi o Leandro Fuzeta que fez a câmara desse dia. No primeiro dia do Jamaica a Leonor também não pode ir e foi o Afonso Mota que fez esse dia. Houve outras pessoas que também contribuíram, mas que acabaram por ser cenas cortadas.

Achas que é também a paixão de fazer o filme que alimenta a criatividade e que acaba por encaixar tudo isso?

É isso, é a paixão de fazer aquilo que temos e tentarmos ser criativos ao máximo, tentar brincar com aquilo que está à nossa mão. Mas só consegui acabar o Verão Danado porque tive um apoio da Gulbenkian para a pós-produção e um apoio do ICA para a finalização. Só assim consegui pagar os estúdios para fazer as misturas.

O curso de cinema também foi feito assim?

O curso de cinema também foi assim. Ia lá aos fins de semana e trazia tupperwares de casa. Mas eu também gosto da comida da minha mãe (risos). Entretanto, acabei o curso e tinha uma grande vontade de fazer o meu filme. Ainda antes deste projeto eu queria fazer um filme dos dias de hoje, com atores jovens, experimentar improvisação e fazer um filme passado nos dias de hoje.

Aqui com um cruzamento entre o documentário e a ficção?

Não, não. Era ficção. Eu gosto muito de ficção, e quando estava a acabar o curso de cinema estava a trabalhar com um rapaz, o Diogo, que trabalhava em argumento comigo uma ideia de ficção sobre três irmãos, numa fase mais ou menos perdida. Um atleta de alta competição em ping-pong, uma rapariga com problemas de saúde e outra sempre a mudar de estágios. Apesar de ser um projeto quase sem orçamento provou ser bastante complexo de produzir e a ideia acabou por ficar de lado.

O som do filme parece ser bastante complexo. Como foi trabalhar esta ideia que funciona quase como uma trip ao longo de todo o filme? Tiveste algum tipo de influência?

Em termos de influências, na altura andava a ler o Infinite Jest (A Piada Infinita), do Foster Wallace. Foi o melhor livro com que já me cruzei. Na altura inspirou-me imenso. Agradou-me particularmente o lado humano do livro. Ele não narra uma história, o livro funciona sempre com monólogos interiores das personagens. Interessou-me a ideia de estar a ver um filme e de nos perdermos nas personagens, cada uma com a sua cor e textura, independentemente de estarem só um bocadinho, de não terem uma moral atribuída. A ideia era também trabalhar as atmosferas, sensações, de uma forma que fosse real, mas sem o ponto de vista clínico ou observador. Ou seja, uma coisa real, mas ao mesmo tempo imersiva.

Usaste as drogas e as trips para esse efeito?

Exato, sim, sim. A questão das drogas é assim: em primeiro lugar não havia dinheiro para pagar drogas a ninguém e era um risco do caraças estas a trabalhar com drogas ou gente bêbada. Depois só usei atores, que têm mais facilidade em recriar esses estados e um pouco o ambiente frenético de Lisboa. Porque Lisboa é um vício.

Olha, fiquei curioso em saber como se deu esta passagem para o cinema?

Aos 17 anos fui no verão visitar uns primos em França e o namorado da prima era cinéfilo e tinha vários DVD’s do Tarantino e do Kubrick. Foi aí que vi pela primeira vez A Laranja Mecânica.Os meus pais devem ter pensado que eu tinha uma maior sensibilidade para isso, e porque os professores de Português elogiavam como escrevia. E acabaram por sugerir que estudasse cinema. Era uma oportunidade que não podia desperdiçar. Era isso ou ir para Economia, não ter futuro e voltar para o Entroncamento.

Não conheço nenhum pai que tivesse sugerido isso aos filhos… Isso mudou a tua vida?

Sim, completamente. Vi muitos filmes, percebi o que se passava atrás das câmaras, que havia um argumento…

Também fiquei curioso como foi a criação do argumento, ou houve improvisação.

Na verdade, não havia um argumento. Basicamente, funcionava por premissas. Era um diário e também beats que queria trabalhar.

Beats, como na música?

Sim, porque o filme tem uma dinâmica diferente de outras estruturas narrativas. É mais próxima da música. Aqueles cinco ou seis momentos altos que nos ligam ao todo e que nos faz pensar sobre o filme.

E o guião funcionou como um diário?

Sim, fiz mesmo um diário. Imaginemos, dia 30 de junho, Chico acaba o curso e visita um colega. E com outros apontamentos horários e de dias. Isso durante o verão todo. O fundo, acabei por me desligar de tudo o que tinha aprendido e a trabalhar sem referências. Foi aqui que aprendi a realizar de forma intuitiva. Foi um risco e um desafio para perceber como funcionava essa minha intuição.

Achas que de descobriste como realizador?

Sim, nesse sentido, foi um filme para me descobrir como realizador. Acho que agora consigo fazer um filme com planificação, argumento.

Com dinheiro…

(risos) sim, de outra maneira. Trabalhei de forma menos convencional, mas interessa-me mais trabalhar com estruturas mais clássicos e perceber como posso romper e trabalhar coisas que eu sei que gosto. Mas para isso sei que tinha de passar por este processo de descobrir como funcionava de forma quase anárquica. O Verão Danado teve esse peso.

Parece-me até que já existe dentro de ti uma intenção de fazer algo diferente. É um projeto ou ideia já formada?

Sim, eu quero fazer um filme no Entroncamento, mas não me vou alongar sobre isso. Quero filmar lá e quero trabalhar com não atores. E com atores. Não com os meus avós que já usei neste filme (risos). Foi interessante perceber como trabalhavam com situações ensaiadas sem deixarem de ser eles próprios. Quero procurar aquele realismo mas que seja orgânico para poder trabalhar outras coisas.

O Verão Danado já tem data de estreia prevista?

À partida vai ser em outubro, mas ainda estamos em conversações para saber onde vai estrear e quando. Há propostas, mas estamos a tentar perceber o que pode ser melhor para o filme. Vai uma experiência, tanto para mim como para a Filmin, já que é o primeiro filme que vai distribuir para além da Festa do Cinema Italiano e do Video on Demand.

Sim, e vamos ver se acontece alguma coisa em Locarno…

O mais importante é que o filme já lá está.

Sobre Paulo Portugal 454 artigos

Insider

Cinema, festivais, entrevistas e críticas.
E algo mais.

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.


*