Lucky: o canto de cisne de Harry Dean

A estreia do ator tornado realizador John Carrol Lynch denuncia aquela espessura, calma e certeza que poderia até confindir-se com a despedida um cineasta em fim de carreira. Talvez porque Lucky seja um western cuja narrativa parece saída de uma musica de Johnny Cash. Por aqui navega o guião bem esgalhado de Logan Sparks e Drago Sumonja, evitando lugares comuns e perfilando-o como um filme de viagem, seja na sua dimensão meramente esotérica ou até no ritual de passagem que cumprimos na vida. Lento, desassombrado, com aquele perfume e dignidade de um clássico.
Só que este é também o filme de Harry Dean Stanton, o veteraníssimo ator de 91 anos que insiste que “não representa, apenas se limita a ser ele próprio”, como nos confidenciou o realizador em entrevista. Este que acabou por ser também o derradeiro filme do eterno cowboy que tem aqui uma das mais singelas e comoventes despedidas, precisamente a cantar um tema do folclore mexicano.

Lucky tem dentro de si muito dos grandes cowboys solitários da história do cinema. Seja John Wayne, de resto referido por ele mesmo num jogo de palavras ao filho de uma mexicana chamada Juan e que Lucky sugere Juan Wayne, mas tambem parte de outro veterano Walter Brennan, habitual do cinema de John Ford, entre tantos outros. Como também, de forma algo assumida, a sua propria personagem de Paris Texas, como não poderia deixar de ser. Só que com ao longo da vida numa pequena cidade sem nome à margem de tudo, e à margem da sua própria idade, Lucky começa a aperceber-se da sua propria finitude.

Seja como for, este ateu convicto parece abençoado pelos deuses, pois além de fumador insaciável não passa sem o seu bloody mary no bar local com uma pequena galeria de personagens que completam o seu quotidiano.

Uma delas e interpretada pelo cineasta David Lynch, aqui num raro papel de ator, a contribuir para esta dedicatória, ao mostrar a sua preocupação pelo desaparecimento do seu cágado de estimação, o Presidente Roosevelt, que provavelmente já teria vivido mais de 100 anos e viveria ainda outros 100.

 No entanto, há uma conversa central no filme que abala a crença de Lucky no vazio inevitável da morte, a do marine veterano que recorda um episódio da 2ª Guerra Mundial, em particular o sorriso de uma criança tailandesa budista, já preparada para o além, a imaginar a morte certa diante dos ianques. Pois ser precisamente o tal sorriso que iluminará o rosto de Lucky no final. Isto depois de já ter encantado os presentes numa festa de aniversário.
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