O Quadrado: quando os nossos preconceitos ficam a nu

Há uma força tremenda que afeta as personagens do novo filme do sueco Ruben Ostlund. Talvez não da mesma forma como do precedente Força Maior, de 2014, em que uma avalanche condicionava e colocava em cheque a verdadeira essência de um homem de família, embora talvez de forma ainda mais vigorosa e surpreendente, ao longo dos sucessivos desaires do convencido curador de um museu de arte contemporânea acabam por visar também o espetador, provocando-o e pondo à prova em diversas situações.

O Quadrado foi, de longe, o mais desconcertante filme de Cannes, por isso mesmo uma merecida Palma de Ouro. Fica agora à esperança dos Prémios do Cinema Europeu a revelar, em Berlim, no próximo dia 9 de Dezembro.

De certa forma, Ostlund parece auscultar o estado da proverbial democracia e cidadania escandinava. A arte de vanguarda, o marketing e o poder viril do dinheiro servem aqui de moldura fictícia que carece de definição segura para interromper a normalidade e a treta do politicamente correto pequeno burguês. O filme viverá enformado dessa forma geométrica tão repetida ao longo do filme, como que a fechar-nos nos nossos próprios limites.

O primeiro embaraço do curador Christian (brava prestação de Claes Bang) ocorre quando a jornalista Anne (Elizabeth Moss) lhe pede que clarifique o significado enrolado e frouxo de uma definição de arte colocada no site do museu. Depressa percebemos que o tapete lhe é retirado debaixo dos pés forçando-o a instintos novos, ao achar que defendeu uma mulher de um ataque na rua pelo companheiro desvairado, embora apercebendo-se que apenas participou numa encenação em que lhe roubaram o telemóvel e a carteira. Alegará ainda que lhe levaram os botões de punho, apenas para perceber depois que os terá esquecido em casa. Só que a reação em tentar reaver os seus pertences apenas o enterram ainda mais num turbilhão.

Talvez por isso, este seja um filme de reflexos, em que somos convidados a pensar como reagiríamos se estivéssemos na pele das personagens. Isto durante uma tensão permanente ao longo das 2h20 minutos de filme. Será mesmo Moss quem lutará, num desafio mútuo de confiança, com Christian durante o cigarro depois do sexo para saber se haverá segundas intenções para aquele que deitar ao lixo o preservativo depois do sexo.

Essas e outras dúvidas para deslindar no meio das nossas incertezas. Qual a reação quando nos pedem esmola? Já lhe pediram para salvar uma vida? Saberá Christian reagir diante daquele miúdo que exige um pedido de desculpas, a si e à família por um gesto irrefletido e prepotente? Não é o gabinete de marketing do museu de que é responsável que publica um vídeo de violência obscena para motivar a viralidade?

É a arte a piscar-nos o olho, com o tal quadrado feito instalação a convidar ao tal “santuário de confiança em que somos todos iguais”. Ostlund observa-nos, observa o ser humano como nós observamos os símios que andam pelo filme. Seja o macaco que Anna (Moss) tem em casa ou o homem-macaco da exposição e do cartaz do filme (o ginasta e artista ‘motion capture’ Terry Notary, presente em Avatar, Planeta dos Macacos, Kong ou O Hobbit) que sublima essa última experiência do seu social.

Sobre Paulo Portugal 454 artigos

Insider

Cinema, festivais, entrevistas e críticas.
E algo mais.

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.


*