Claudio Carbone e o cinema militante de Another Lisbon Story

Uso o meio audiovisual como instrumento político

O italiano Claudio Carbone faz cinema como uma ferramenta de análise social e arma de intervenção política. Isso mesmo nos confirmou na entrevista concedida em português fluente e bem ordenado pouco antes de viajar para Barcelona para participar no XIV Festival de Cinema de Direitos Humanos onde Another Lisbon Story foi exibido na secção competitiva relevando os extremos de precaridade social do Bairro da Torre na cidade de Lisboa. É assim o cinema urgente de Claudio Carbone.

Este foi um projeto nascido no meio académico da arquitetura informal, empenhado a encontrar soluções para melhorar a vida em zonas desfavorecidas de Lisboa, que o cineasta e ativista procurou implementar alguma experiência trazia do trabalho realizado em favelas do Rio de Janeiro.

É que o cinema em Carbone não sai sem uma razão social subjacente. E arquitetónica. Desde que saiu da aldeia de Anzi, na região de Potenza, no sul de Itália, o realizador de 29 anos tem aliado o cinema às causas.

Depois de um primeiro documentário nascido por brincadeira, durante uma viagem ao México com três amigos, onde conheceram a realidade política do sul do México, Carbone entrou na ‘favela’ do Bairro da Torre para captar o realismo dessas comunidades desfavorecidas. Entretanto, monta o seu quarto documentário, filmado na Costa Rica, sobre o conflito reinante entre entre as comunidades indígenas e as multinacionais.

Como começou o projeto Another Lisbon Story, filmado por um italiano em Lisboa, sobre uma componente social tão forte como a habitação?

Eu sou arquiteto. Trabalho com arquitetura social. A minha primeira experiência em arquitetura social foi numa favela no Rio de Janeiro.

Imagino que no Brasil exista muito espaço para o que faz…

É algo institucional. A cidade cresceu com as favelas e já não dá mesmo para as eliminar. Então temos de encontrar formas de trabalhar dentro as favelas. Essa foi uma primeira escola. Quando cheguei aqui comecei a trabalhar dentro de um grupo também dentro e situações informais. Foi assim que conhecei o Bairro da Torre. Tenho de dizer que tudo o que podia imaginar na minha vida, não se compara com aquilo que encontrei no Bairro da Torre, muito pior de tudo o que vi no Brasil.

De que forma projetou a abordagem do projeto?

A primeira coisa foi ter uma relação académica com este bairro, fazer um trabalho de campo. Depois, porque já tinha alguma experiência com projetos audiovisuais foi fazer um trabalho que denunciasse essa realidade. Portanto, mais um trabalho de denúncia.

Dentro da tua formação, consideras-se mais ativista ou cineasta?

Para mim, claramente a parte social e política tem mais importância. Eu sou também um militante político em Itália. Faço política de baixo, com ocupações, para tentar dar casas a quem não encontra. Ações com migrantes sul americanos que não encontram soluções por parte dos entes públicos. Juntam-se com coletivos políticos para encontrar soluções de habitação.

O que achou específico no Bairro da Torre?

Eles tinham de encontrar soluções pois já existia essa realidade. O Estado está a esquecer-se deles. E a população de Lisboa não conhece o estado deles. Além deste documentário, fiz também outras ações, como colar fotografias debaixo de monumentos aqui em Lisboa. Por exemplo, quando a vossa companhia de eletricidade foi privatizada – por chineses não foi? – acabaram por cortar a luz. Passar lá um inverno sem luz é terrível. Para o aquecimento, para a comida. E falamos de pessoas que vivem com 200€ por mês. A situação é bastante precária, pois têm crianças. É necessário um processo político. E o município de Loures tem algum interesse em ajudar, só que não entra dentro das práticas do município dar uma outra habitação para estas pessoas, tens de ter um interesse governativo.

Como se deu a ligação entre o vosso projeto e a câmara?

O nosso objetivo académico foi em primeiro lugar empoderar as comunidades para perceberem quais são os seus direitos. São portugueses, mas também de Cabo Verde, São Tomé e ciganos. Sendo portugueses têm direitos como qualquer cidadão português. Portanto tem também direito a uma habitação. O nosso trabalho foi tentar explicar quais eram os direitos deles. Foi interessante, porque na comunidade viviam duas comunidades diferentes, negros e ciganos, onde é costume existirem conflitos internos entre ambos. Mas depois desse trabalho de sensibilização começaram a trabalhar juntos com um objetivo em comum.

Percebe-se no filme que alguma cosia foi feita. Mas esse trabalho teve continuidade?

Agora tenho de ver como está o resultado, pois há quase um ano que vivo fora e não sei. Eu não quis dar um final ao filme, porque esta realidade não tem um final. O que aconteceu no bairro foram pequenos projetos de espaços públicos com a finalidade para aumentar uma conexão entre eles. Mas a nível real não mudou nada. E alguma coisas pioraram mesmo.

Quais são as tuas referências neste tipo de cinema?

Tenho de dizer que a referência do documentário que tenho mais forte é do (Gianfranco) Rosi (Fogo no Mar, vencedor do Urso de Ouro, no festival de Berlin, em 2016). Estou a trabalhar para tentar chegar a esse nível, no seu estilo de construir histórias com entrevistas, algo que eu passei por isso no começo. Algo que tentei fazer também no trabalho que fiz na Costa Rica. Por outro lado, o instrumento audiovisual é muito forte para criar um debate público com as pessoas. Isso permite um debate também maior depois de apresentar o trabalho. Para mim, é também um momento de crescimento cultural. Isto porque tenho também sempre um conflito ético para mostrar o que mostro. Quando mostramos um documentário estamos a mostrar a privacidade da pessoa. Isso gera em mim algum conflito.

Quando sentiste que despertou em ti essa necessidade de olhar mais para o outro?

Eu sou de uma pequena província no sul da Itália, Potenza. Mas a minha aldeia chama-se Anzi, uma aldeia de 1000 pessoas. Quando fui estudar para Roma, fui um choque cultural e social gigante. Cheguei a uma cidade que tem ainda um processo cultural complicado, com bairros negros e bairros vermelhos, portanto, fascistas e anti-fascistas. Cheguei perto dessa realidade porque comecei a jogar rugby num espaço ocupado, um projeto político inclusivo, com muitas pessoas que têm uma obrigação civil muito forte. Chegar perto dessas pessoas despertou em mim uma grande cumplicidade com os problemas do mundo.

Para ti fazer cinema faz também parte de um processo político?

Sim, isso é o principal. Eu uso o meio audiovisual como um instrumento político. Nesse sentido, acho que funciona.

Para finalizar, como encaras esta evolução social nas cidades?

As migrações vão aumentar ainda mais e as pessoas vão chegar ainda mais à cidade. E já não têm espaço na cidade. Por isso as cidades informais vão aumentar também. Temos de encontrar outros níveis de plano urbanístico para tentar encontrar soluções para esta realidade. Por isso, mostrar este documentário serve também para criar uma ideia. Mas eu não tenho resposta para isto. Se calhar um debate pode ajudar a criar uma cidade um pouco diferente. É preciso que isso aconteça. Esse foi também um dos objetivos principais porque fiz este filme.

 

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