LEFFEST: Abel Ferrara – Pasolini e o fim do mundo

Abel Ferrara é um velho conhecido. Temos-lhe seguido o rasto desde que prenunciou o apocalipse em 4.44 O Fim do Mundo, há cerca de três anos e meio, em Veneza, testemunhando depois o documento incendiário Welcome to New York, em Cannes, motivando a interpretação livre do “affaire” Strauss-Kahn, com um Gérard Depardieu “bigger than life”, e acompanhando as suas passagens por Portugal, sempre a convite do Lisbon & Estoril Film Festival, onde apresentou recentemente a sua visão sobre o último dia na vida do carismático realizador italiano Pier Paolo Pasolini.

Um projeto há muito acalentado por este nova-iorquino de gema, mas cuja costela italiana há muito o puxava para invocar um cineasta paisano que muito influenciou o início da sua carreira. Na verdade, o jovem Ferrara admitiu que só passou a encarar o cinema com olhos de ver depois de se deslumbrar com Decameron (1971). Tinha Abel 20 anos.

Dafoe em Last Day on Earth

A Ideia do fim do mundo é algo que o preocupa?

Não é algo que esteja sempre a pensar. Não estou preocupado com o fim do mundo. Toda a gente pensa na morte e basicamente eu consigo mais dos atores quando paro de dizer que vem aí o fim do mundo às 4:44 e lhes digo “esta noite vais morrer”. Não penses no mundo, pois no final todos morrem sozinhos. Quando dizemos a alguém que às 4.44 ela vai morrer, aí chamamos totalmente a sua atenção.

É interessante, mas não entra em muitos detalhes sobre a razão do fim do mundo…
Eu não queria fazer uma análise científica e acho que toda a gente percebe porquê.
O final do filme sempre esteve claro para si?
Sim. O filme chama-se The Last Day on Earth, por isso eu tinha o fim (risos) Nós tínhamos o final e sabíamos que ia acontecer às 4:44 (risos). Como chegariamos até aí, essa é outra história.
É pessimista com o futuro…
Sou pessimista no sentido de não acreditar, a não ser que sejam apresentados factos danosos, que um filme possa mudar a atitude das pessoas.
Como é que se arranja financiamento para uma produção como esta?
É incrivelmente difícil e tens de encontrar uma maneira de fazer as coisas sem gastar muito dinheiro. Acabaram-se os dias de limusinas e champanhe. Os filmes têm de ser feitos com menos dinheiro e temos de chegar às pessoas que realmente gostam deles. Não é um grande negócio, aliás, nunca foi. Existe um pequeno grupo de pessoas, como o Johnny Depp, etc, que estão nesse nível, mas todos os outros têm de encontrar a maneira de ganhar a vida a fazer filmes.
Há quanto tempo gravitava na sua mente o projeto sobre Pasolini?
Era algo em que pensava há talvez vinte anos. Acho que logo a seguir a O Rei de Nova Iorque (1990). Na verdade sempre quis fazer um filme sobre Pasolini. Mas a ideia de fazer um filme biográfico teria sempre de passar pelo conjunto de documentários que foram feitos para investigar e reunir as minhas ferramentas. Foi a partir dessa perspetiva que nos aproximamos no universo de Strauss Kahn (que originou no polémico Welcome to New York) e até da inspiração para este Pasolini.
Por acaso não tinha pensado de imediato nessa relação… Entende então que existem pontos de contacto entre Pasolini e Welcome to New York?
Sim, claro. Ambos os filmes começaram de um ponto de vista documental, embora sejam ficções. Os dois. Para mim a pesquisa é imperativa. Par os atores não sei. Para o Gérard talvez não tanto, mas para o Willem sim, claro. Para o filme do Strauss-Kahn usámos os eventos, mas sabíamos que não estávamos a fazer um documentário, nem sequer uma investigação. Ambos partem de pessoas que não conhecemos e que se inserem em eventos que acabam por ter uma ressonância temporal. Existe claramente um paralelo entre estes dois filmes.

A escolha de Willem Dafoe para incarnar a persona de Pasolini parece-me evidente. Mas a opção de falar inglês foi decidida logo no início?

São sempre escolhas práticas. Não fui eu que escolhi o Willem. Escolhemo-nos aos dois. Decidimos em conjunto fazer este filme. Poderia tê-lo filmado em língua italiana. Aliás, o Willem fala muito melhor italiano do que eu. Mas eu preciso de ouvir as ideias dele em inglês. E que diferença faz a linguagem? Não deixamos de ler Dostoiewski por não sabermos russo. A linguagem é a forma e exprimir as ideias. O filme é em francês, italiano e inglês.

Dafoe como Pasolini

Até que ponto este cineasta italiano o levou a estreitar os laços da sua própria herança italiana?

Eu pertenço ao tipo de família que o Pasolini amava. Eram gente do campo, nada intelectuais. O meu avô sabia ler e escrever, por isso estava um pouco adiante do resto da comunidade. Veio para a América com vinte anos, em 1900. Viveu até aos 96 e nunca falou uma palavra de inglês. Passou a vida a falar o dialeto napolitano, recriando o ambiente da Campangna (província de Salerno) e do Paese (comuna da região do Veneto). Ele vivia em Ab Sarno, uma província de Salerno perto de Nápoles. O meu avô era o tipo de pessoa que o Pasolini adorava. Mas também fez a emigração para Nova Iorque e aí se aburguesou. À sua maneira, claro.

Porque acha que o Pasolini continua a ser uma figura tão controversa em Itália?

Ele não é controverso. O Pasolini é um grande cineasta. E acho que o seu trabalho torna-se cada vez mais forte à medida que o tempo passa. Ele é um grande escritor, um jornalista, um poeta. É tudo isso e ainda um realizador. Foi ativista político e um homossexual assumido – um dos primeiros a assumir-se. Isto em 1975, com todo o poder do Vaticano em vigor. Por tudo isso, a sua coragem é tremenda. Ele era um hippie, contra todas as convenções. Será que isso o torna controverso? Sim, claro. À medida que a sociedade se tornava mais repressiva ele tornava-se mais radical. Mas para mim ele não é um radical, trata-se apenas de um talento brilhante a viver a vida ao máximo.

(entrevistas anteriormente publicadas em www.c7nema.net)

 

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