Festa: Amigos à beira de um ataque de nervos

Depois do brilhantismo arthouse de Orlando, já lá vão uns anitos, a produção de Sally Potter tornou-se algo intermitente. Ainda assim, o filme foi bem recebido no festival de Berlim, e, fevereiro passado, onde foi exibido em competição. Foi de resto com essa indicação que fomos de peito aberto para os prometidos 71 minutos de cinema de circuito fechado, à procura dos diálogos dos vários convidados que celebram a promoção política da personagem de Kristin Scott Thomas. No entanto, logo percebemos que este registo em contrastada fotografia a preto e branco não era mais do que um light crowd pleaser sofisticado para entreter. Apesar do aplauso, é pena que o humor seja bem mais de situação e a pedido do que pelo mérito do texto.

De resto, até a comparação feita ao mal-amado The Dinner, de Oren Overman, também exibido em Bertlim, acaba por funcionar ao contrário, já que a intensidade de panela de pressão, a qualidade do texto e mesmo a interpretação acaba por ser mais envolvente. Nada a dizer. De um lado, um filme simpático empenhado num reviralho de situações, do outro, a adaptação de Moverman de um trabalho mais eficaz de texto e atores. Enfim, são gostos.

Quando Kristin Scott-Thomas abre a porta da sua casa em Londres e aponta uma pistola ao espetador percebemos que essa ‘party’ não vai ser pacífica. De resto, um Timothy Spall esgotado, magríssimo e ausente procura esconder-se atrás dos blues que põe a tocar no pick up. Patricia Clarkson, talvez a compor a personagem mais sólida, é a sua colega de partido que usará da sua cortante ironia como uma arma de fogo; desde logo para o ‘marido’, um Bruno Ganz em versão karmica e espiritual, frequentemente chamado a por água na fervura neste micro-ondas emocional rapidamente à beira de um ataque de nervos. Há ainda o casal gay, com a jovem Emily Mortimer a declarar a sua esperança de trigémeos e a bem mais terrena Cherry Jones pouco preparada para esse inesperado futuro. Será Cillian Murphy a cereja no topo do bolo? Pelo menos, este consultor financeiro dependente de coca e com uma dúvida afetiva é claramente o elemento mais à deriva – a arma é dele. Marianne, a sua mulher,  não virá, mas será também essa ausência o rastilho da bomba com sucessivas explosões.

Lá está, temos aqui material de sobra para uma festa de revelações e crises. De resto, a câmara de Alexey Rodionov até faz o que pode ao assumir-se como barómetro da pressão interior. De uma forma mais lateral teremos até um auscultar do ambiente político do país autor do Brexit, ainda que apenas a conferir mais um tom à história. Sejamos francos, é bem mais de entretenimento ligeiro que se trata quando se trata desta Party. Talvez pudesse, e devesse, ser mais festa.

Sobre Paulo Portugal 413 artigos
Insider Cinema, festivais, entrevistas e críticas. E algo mais.

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.


*