DocLisboa: Vira Chudnenko, de Inês Oliveira, o melhor da competição nacional

“A senhora russa e eu cruzavamo-nos todos os dias às 6h da manhã, porque ia todos os dias de bicicleta para o trabalho”. Começa assim, em russo, o relato de 30 minutos que descreve o testemunho de um ato traumático, no caso o de uma mulher que perdeu a vida após um ataque fatal de quatro cães Rotweiller. Essa mulher chamava-se Vira Chudnenko e esse é também o título do filme de 30 minutos de Inês Oliveira, considerado o Melhor da Competição Portuguesa pelo júri do DocLisboa.

Terá impressionado o júri a opção narrativa e estética da cineasta ao optar pelo relato áudio desse evento brutal e em que as imagens fixas e despidas de ação parecem servir de testemunho solene de que algo que apenas imaginamos por essa descrição. Esse é ainda um trabalho baseado nos testemunhos de Amália Dias e Lina Gomes, lido por Alevtina Pugatch.

Surpreende, sobretudo, a opção estética e narrativa que acaba por nos conduzir a uma outra dimensão onde o cenário entre o idílico e misterioso das imediações de Sintra, a contrastar com uma outra realidade bem diferente, de casas abandonadas naquele campo e com este evento de puro horror. Igualmente contrastado, seria também o quotidiano de trabalho da mulher Vira Chudnenko, uma emigrante ucraniana em Portugal, nas imediações de um mundo bem mais remediado.

Há aqui uma vontade de dar voz a uma mulher que veio procurar uma vida melhor e que acabou esventrada no meio da rua, atacada por quatro cães. “No lugar errado à hora errada”, haverá de referir-se como que a lamentar o irremediável. Algo que Inês Oliveira confere uma dignidade que se calhar nunca chegou a ter. Mesmo sem as querer abordar de forma direta, as outras questões continuam lá.

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