Outubro 20, 2020

No Intenso Agora: Tudo sobre a minha mãe

DocLisboa * No Intenso Agora * Da Terra à Lua

João Moreira Salles não se considera cineasta ou documentarista, mas acima de tudo um jornalista de investigação mais empenhado numa atitude de reflexão estética. Ele não filma, ele estuda as imagens. E questiona: Como se filma numa democracia, como se filma numa ditadura?, uma interrogação e pesquisa que acaba por aliar a euforia da mãe em plena China revolucionária de Mao, ao turbilhão de Daniel Cohn-Bendit e a sua relutância em prosseguir uma revolução em Maio de 68, ou até a opressão soviética em Praga. Assim mesmo, No Intenso Agora.

Dez anos depois do magnífico Santiago, sobre o mordomo da casa de família dos Salles, João Moreira regressa a um novo estudo ancorado numa base pessoal. Depois de ser apresentado em estreia mundial no festival de Berlim, na secção de documentários do Panorama, No Intenso Agora foi distinguido em Paris no Cinema do Réel, com prémio para a melhor banda sonora de Rodrigo Leão. Passou entretanto por San Sebastian, onde tivemos ocasião de entrevistar JMS. Chega agora ao DocLisboa, da Terra à Lua.

João Moreira não filmou um frame de No Intenso Agora. Apenas editou as imagens e procurou o seu significado no magnífico off que as vai pontuando. Mas essas são, afinal de contas, as palavras da mãe extraídas do artigo que publicou a propósito dessa viagem. Aqui se cruzam então os home movies da família, as imagens de arquivo do movimento estudantil de 68, a invasão russa em Parga, após a Primavera de Dubcek, vista por imagens furtivas, e até mesmo o eco da morte de um estudante no Brasil e a consequente revolta estudantil. O exercício é curioso, fascinante mesmo, ao longo do qual se analisa o significado das imagens, as suas circunstâncias. Um pouco à maneira de Chris Marker.

Não será até preciso fazer uma grande análise para perceber como a motivação deste projeto acaba por estar paredes meias com uma tocante evocação familiar. Porque é ali, naquelas imagens frenéticas captadas pela mãe durante uma viagem turística à China revolucionária de Mao Tse Tung, que se percebe a felicidade que João não chegou a conhecer. Terá sido até essa find footage das latas de filme que encontrou no arquivo da família a motivar um dos estudos mais fascinante sobre o significado e o lado mais oculto das imagens. Eu conheci a minha mãe já triste, refere o filho na nossa entrevista; uma profunda tristeza que levaria Elisa Gonçalves, uma grande dama brasileira, mulher do embaixador Walther Salles e mãe de Walter Salles e dos irmãos Pedro Moreira Salles e Fernando Moreira Salles, a abandonar cedo demais esta vida.

Quem sabe, seria também para ela o significado do slogan estudantil de Maio de 68 sous les pavês, la plage (debaixo das pedras, a praia), a simbolizar a calma da areia que se encontra no solo depois arremessadas as pedras da calçada? Uma metáfora a que Salles confere a sua justaposição, até para contrastar a vida pacata que levava com a família nos jardins da embaixada brasileira em Paris.

Este filme nasceu de um fado, como nos revelou Salles no final da nossa entrevista, e acaba também com um fado e a banda sonora de Rodrigo Leão, de resto premiada no festival Cinéma du Réel, em Paris. Assim vivemos No Intenso Agora.

 

 

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