Dezembro 8, 2019
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O Sabor da Cereja: os 20 anos de uma obra-prima

Foi há 20 anos que O Sabor da Cereja venceu a Palma de Ouro em Cannes. Hoje celebramos a obra magistral de Kiarostami em cópia nova e certificada.

O cinema de Abbas Kiarostami tem um certo lado monumental, não seguramente pelo sentido de escala, já que se pauta por um verdadeiro ascetismo, mas naturalmente pelo monumento em si, esse cuidado rigoroso com as ideias, os conceitos a fluir num cinema totalmente depurado, despido. À flor da pele. Será por penetrar dentro da nossa pele que nos arrepia?

Um homem faz uma espécie de répérage para determinar a sua sepultura, bem como encontrar um cúmplice para esse seu rito de passagem no buraco que abriu. Como em outros filmes anteriores, Kiarostami deixa fluir o plano, e deixa-nos aqui seguir no jipe neste quase road movie ao longo de uma sinuosa estrada de poeira – talvez uma espécie de mapa da nossa própria existência -, ditado por um cenário monocromático, feito de ocre, que se confunde com o mesmo por-do-sol do novo Blade Runner 2049. Aqui não há vida, só terra, pedras e poeira. E onde só há os homens que trabalham na terra ou pedem trabalho. Eram estes os difíceis anos 90, em que a realidade do seu país apenas apenas permitiu que Kiarostami saísse do país para apresentar o filme no Festival de Cannes que haveria de ganhar.

Há também as longas conversas a bordo deste todo-o-terreno com aqueles testemunhas que este homem pretende convencer para a dimensão do seu gesto, até ao taxidermista do Museu de História Natural de Teerão, o Sr. Bagheri (o não ator Abdolrahman Bagheri) que aceita confirmar de madrugada a morte de Badi (o consagrado ator Homayoun Ershadi) e deitar-lhe as sacramentais pazadas de areia por cima do corpo sem vida. Mas não sem antes de lhe contar a sua própria experiência de vida, e até a tentativa de suicídio, abortada pelo tal reflexo de vida e sabor frutado.

É este um cinema de grandes questões, mesmo que nunca saibamos o motivo para o suicídio de Badi, que nos convida a pensar e deixar florir ideias. Uma coisa é certa, trata-se de um cinema enorme, carregado de metáforas e significados. Mesmo que sejam acidentais, como a sequência final captada em vídeo, no final making of da rodagem da equipa de Kiarostami, apenas usada porque o laboratório teria arruinado o filme com os últimos planos.

Para a história fica a Palma de Ouro para O Sabor da Cereja, na histórica 50ª edição do Festival de Cannes. Tal como a igualmente histórica celeuma que opôs diversos membros do júri, visivelmente divididos pelo merecimento do prémio, em particular um isolado Nanni Moretti muito empenhado e ativo em premiar Kiarostami, que acabaria por sair vencedor do júri presidido por Isabelle Adjani, embora num excepcional prémio ex-aequo dividido entre A Enguia, do japonês Shoei Imamura, já vencedor da Palma por A Balada de Narayama. Enfim, histórias de uma obra-prima.

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