Laurent Grousset: “A obra do meu tio tem uma ressonância mundial”

O imortal Jean-Pierre Melville

Ciclo integral Jean-Pierre Melville Cinemateca Portuguesa

Afinal de contas Melville rima com cinema policial, embora com perfume americano. Culpa de Jean-Pierre Grumbach que optou por usar o apelido do autor de Moby Dick, Herman Melville, dos tempos da Resistência francesa durante a ocupação nazi em França e dar-lhe um novo significado.

Ainda que o seu destino de cineasta fosse anterior a esse batismo, pelo menos desde que recebeu nos braços uma Pathé-baby e começou a fazer home movies ainda em criança, aliado ao seu vício de ver fitas americanas. Um aspeto de resto confirmado pelo sobrinho Laurent Grousset na nossa entrevista ao recordar quando o tio lhe dissera que estava drogado pelos filmes.

Alain Delon, O Denunciante (1967)

Haverá algum momento marcante para esse acordar para o cinema? Talvez quando Melville viu Sombras Brancas nos Mares do Sul/White Shadows in the South Seas, de W.S. Dyke e Robert Flaherty, de 1928, por certo numa das suas sessões contínuas em via vários filmes de seguida. Determinado, mesmo sem ter estudos de cinema e sem possibilidade de trabalhar como assistente de realização, acaba por fundar o seu próprio estúdio, o que lhe permitiu tornar-se num realizador independente justificando a sua expressão: os primeiros filmes devem ser feitos com o nosso sangue.

Assim foi com a curta 24 Heures da la vie d’um clown, em pleno pós-guerra, em 1946, e mesmo na sua estreia no grande formato Le Silence de la Mer, em 1949, que fez em estilo guerrilla, sem autorizações de rodagem e mesmo sem a autorização oficial para a adaptação por parte do autor do livro, Vercors. Em todo o caso, seria o género policial noir que Melville afirmaria o seu lado mais autoral.

Passaram para a história do cinema filmes como Bob le Flambeur (1956), Dois Homens em Manhattan (1959) ou Le Doulos/O Denunciante (1963), em que numa primeira fase Melville faz recurso à câmara à mão e cenários de exterior, em tom quase documental, em parte que viriam a inspirar Jean-Luc Godard em A Bout de Soufle/O Acossado, em 1959, onde Melville tem mesmo uma cameo marcante.

Ainda assim, o “realizador francês mais americano”, como muitos o apelidavam, assumia mais o sonho e a fantasia do que essa realidade, nas suas constantes deambulações entre a rodagem de exteriores e a técnica de estúdio, com uma expressão talvez mais dominante em Le Samourai (1967), com um inexpressivo Alain Delon a assumir numa espécie de fusão entre o film noir de Hollywood e o os filmes de samurais na linha de Kurosawa, embora com o cenário e ambiente tipicamente franceses da época. Um filme repetidamente copiado por outros, mas sem perder uma pitada de atualidade.

O Círculo Vermelho (1970)

Até ao fatídico dia 2 de agosto de 1973, Jean-Pierre Malville faria 13 filmes e uma curta metragem. Mas tinha planos, muitos planos, como refere na nossa entrevista o seu sobrinho Laurent Grousset o tal desejo de fazer um filme americano que espantaria todos. Seguramente, seria um novo filme de culto. Como grande parte da sua obra que recuperamos na retrospetiva integral que a Cinemateca Portuguesa mostra em parceria com a 18ª Festa do Cinema Francês. Sim, Jean-Pierre Melville tornou-se imortal e depois morreu, como refere em O Acossado. Ou talvez não. As inúmeras retrospetivas que se fazem um pouco por todo o mundo comprovam a atualidade do seu cinema. Portanto, JPM vive!

 

Como elemento da família de Jean-Pierre Melville, como o descreveria?

Jean-Pierre Melville foi um ser humano ímpar. Mas ele tinha duas faces. Por um lado, era o Jean-Pierre Melville público, por outro, o Jean-Pierre Melville (JPM) privado. Eram duas coisas completamente diferentes. O JPM privado era uma pessoa charmosa, doce. Nós, crianças, estávamos sempre com ele, passeávamos e passávamos muito tempo com ele.

O que aprendeu com o seu tio?

Aprendi muitas coisas. Por exemplo, foi ele quem me formou na vida para muitas coisas. Para o cinema, o jazz e a música em geral, o circo, ele adorava o circo, e eu também. No trabalho ele era uma pessoa totalmente diferente. O Jean-Pierre era duro, muito exigente. Não era muito aberto. Poderia ser muito duro num plateau se qualquer coisa o desgostava.

Aparentemente, não era tão exigente com os atores…

Com os atores, não. Com os atores, ele tinha um respeito infinito. Podemos aprender a ser realizadores, mas não podemos aprender a ser atores. Pode nascer-se com os genes de ator, que podem ser bons, maus, péssimos ou sublimes. Mas nascemos com eles. Ele tinha uma forma muito complexa de lidar com os atores.

Le Silence de la Mer (1949)

E sem uma grande formação profissional de cinema, certo?

Ele era um tipo aparte, um criador que nunca aprendeu a fazer cinema. Nunca assistiu a uma rodagem de um filme. Nunca foi assistente de realização. E assim fez o seu primeiro filme Le Silence de la Mer (1949). Por outro lado, tinha uma memória prodigiosa. Desde miúdo passava a vida a ver filmes e filmes, sem parar. Um dia, disse-me: sabes, sou um pouco drogado pelos filmes. A sua média eram cinco filmes por dia.

Mas foi isso também que lhe permitiu fazer cinema.

Correto. Mas também foi uma pessoa que revolucionou e modificou muitas coisas no cinema. Foi também uma pessoa que copiou, no início, e que se inspirou. Para ele, o cinema americano dos anos 30 e 40 eram a sua bíblia. Foi o cinema que o inspirou. O que é estranho é que quando o Jean-Pierre se tornou Melville, o Sr. Melville, não só os americanos, como os asiáticos e os franceses acabaram por se inspirar nele. Era isso Jean-Pierre Melville.

Ainda existe a sua Pathé-Baby que recebeu aos seis anos de idade e com a qual fez os seus primeiros home movies?

Não, mas por outro lado, o que existe… Bom vou contar-lhe uma história. Um dia, o Jean-Pierre telefona-me para casa e pede-me para descer em quinze minutos. Percebi que me vinha buscar no seu enorme carro descapotável americano. Levou-me ao seu escritório nos Campos Elíseos, subimos ao 3º ou 4º andar, já não me lembro bem, e diz-me: “agora fechas os olhos e só os abres quando eu disser”. Eu, muito excitado, julguei que iria ver a Brigitte Bardot ou a Marilyn Monroe. Mas quando me diz para abrir os olhos, o que vejo? Uma câmara, num tripé. Era a sua primeira câmara, uma Cameflex 35mm, com que fez os seus primeiros filmes. Eu fiquei abismado, duplamente, porque sou eu que a tenho hoje comigo. Guardei-a. Mas para ele foi também um acontecimento enorme. Foi com ela que fez todos os seus primeiros filmes. Há muitas fotos dele com a “minha” câmara…

A primeira câmara de Jean-Pierre Melville, uma Cameflex 35mm (imagem gentilmente cedida por Laurent Grousset)

Estamos então no centenário do nascimento de JPM, mas também do nascimento da sua Fundação. Pessoalmente, como avalia este momento?

Em primeiro lugar, cem anos depois do seu nascimento, a obra do meu tio tem uma ressonância mundial. Entretanto, o meu primo Rémy e eu tivemos a ideia de abrir uma fundação em Los Angeles, com dois objetivos. O primeiro, e mais importante, foi preservar o património fosse remasterizado – não foi ainda tudo, mas quase – e assegurar no mundo inteiro os eventos ‘melvillianos’; para além disso, criámos um fundo para um prémio Jean-Pierre Melville para ajudar os novos cineastas com menos de 35 anos a fazerem o seu ‘primeiro filme Melville’.

Já agora pergunto, qual foi o seu primeiro filme ‘Melville’, o primeiro filme que o abalou?

Vai ter um choque, porque o primeiro filme que me abalou mesmo foi em 1946, quando o Jean-Pierre fez a sua primeira (e única) curta-metragem, 24 heures de la vie d’um clown. Até porque ele disse me que iria incluir nesse filme. Então, há um momento em que um miúdo de sete ou oito anos que passa a correr na cena. São dois ou três segundos. Sou eu. Foi então o meu primeiro momento ‘melvilliano’. É claro que depois segui todo o seu trabalho, os filmes, fui a muitas filmagens, por vezes trabalhava com ele. Foi uma relação muito próxima, ‘melvilliana’ de A a Z. Até ao malfadado 2 de agosto 1973 em que ele partiu. Ou seja, “tornar-se imortal e depois morrer”, como refere a sua personagem em O Acossado, na estreia de Godard.

Ficaram os seus 14 filmes…

13 filme e uma curta-metragem.

Sim, apenas a primeira parte do que poderia ter sido uma carreira enorme.

É fantástico pensarmos que esse tipo que morre aos 55 anos, jovem, fez apenas 13 filmes, e cem anos mais tarde é falado em todo o mundo. Isso é formidável. Nós e a sua família estamos muito contentes. Por isso queremos com esta fundação dar continuidade à sua obra.

Melville em O Acossado, de JP Godard

É extraordinário o legado que deixa e a influência nos EUA e um pouco por todo o mundo, bem como até para uma redescoberta da ‘nouvelle vague’.

Fala da ‘nouvelle vague’ e eu lembro-me de me encontrar no seu estúdio com o Godard, o Chabrol, o Truffaut, com todos eles que vinham falar com o Jean-Pierre. Vinham pedir-lhe conselhos, porque o consideravam como o pai da ‘nouvelle vague’. Mas o Jean-Pierre não concordava com essa ideia. Para ele, a ‘nouvelle vague’ era uma maneira de fazer cinema com poucos meios.

Como poderemos ver hoje a modernidade ‘melvilliana’? É algo que, para si, faz sentido?

Essa modernidade relaciona-se com todos os realizadores modernos, de grande qualidade, falo de Quentin Tarantino, Anthony Mann, de John Woo, de vários cineastas, como Tavernier e outros, que são realizadores muito atuais, mas que têm algo de Melville. E são eles que o dizem. Tenho uma história: há uns anos, mais de 30 seguramente, num videoclube de Los Angeles, o meu primo Rémy perguntou na loja a um tipo chamado Quentin Tarantino se tinham filmes franceses, ao que ele disse que tinham alguns, mas que aconselhava um, em particular, era O Denunciante. Nessa altura, já se tratava de um verdadeiro filme de culto.

Para terminar, o que poderemos dizer para quem não conhece bem Melville desta sua retrospetiva na Cinemateca, integrada na Festa do Cinema Francês?

Na verdade, muitas pessoas não o conhecem. Podem conhecer o nome, mas não a sua obra. Em Belfort já temos uma rua chamada Jean-Pierre Melville, no mês que vem inauguraremos uma praça, no sul da França, na Ciotat. Para todas essas pessoas, é provavelmente uma redescoberta. É preciso falar dele. É o que fazemos, com a Fundação, com o Institut Français e com todas as retrospetivas que se fazem em todo o mundo. É então graças as essas retrospetivas que se fazem agora e até outubro de 2018 que lhe dará essa modernidade ao Jean-Pierre de que fala. Filmes como O Círculo Vermelho (1970), O Exército das Sombras (1969) ou Ofício de Matar (1967) são completamente modernos, apesar de terem já muitos anos.

A questão do silêncio era fulcral…

Sim, ele dominava como ninguém a gestão do silêncio. Não conheço nenhum outro que o fizesse tão bem como ele. Muitos tentaram, mas não como ele. Scorsese quando fez o The Departed – Entre Inimigos (2006), mostrou um filme do Jean-Pierre aos seus atores. Muita gente não sabe isso.

Falamos muitas vezes do seu lado americano, no seu caso vê-o mais como o mais americano dos cineastas franceses ou o mais francês dos cineastas americanos?

Eu diria o mais francês dos cineastas americanos. Para o Jean-Pierre, a América foi sempre um sonho. Ele estava inundado pelo cinema americano. O primeiro filme que ele viu na sai vida foi um filme mudo americano. Mas ambas as expressões são válidas. Lembro-me ainda, quatro, cinco, seis meses antes da sua morte, ele me dizer: “sabes, um dia vou fazer um filme americano e toda a gente vai ficar surpreendida”.

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