Judi Dench: sobre Vitória & Abdul, de Stephen Frears

“Estou muito satisfeita por termos uma monarquia”

Como é que uma criatura tão baixa em altura se agiganta a cada filme em que participa? Precisamente como sucede no caso de Judi Dench no surpreendentemente hilariante e recém-estreado Vitória & Abdul, naquela que é a sua quinta colaboração com Stephen Frears. Mesmo que ela diga na nossa entrevista que a sua grande paixão é o palco do teatro, a declamar Shakespeare, percebemos como isso se relativiza, por exemplo, diante de mais uma magnífica e real interpretação no cinema. A explicação talvez resida na tal energia que Judi diz ser de família e sem qual talvez não conseguisse fazer o que faz tão bem.

De resto, esta é a segunda vez que a britânica de 83 anos interpreta a temível monarca Rainha Vitória (a outra foi em Sua Majestade, Mrs. Brown, de John Madden, em 1997), já na última fase da sua vida, embora ainda disponível para viver uma espécie de aventura romântica com o seu assistente indiano, 48 anos mais novo, Abdul Karim (Ali Fazal), um funcionário de Agra que conheceu durante uma cerimónia em que este veio da Índia, em 1887, para lhe entregar uma medalha. A ambição e ousadia de Karim fez com que ganhasse a atenção da rainha e se tornasse no seu conselheiro privado e, dizem até as más línguas, chegar mesmo a ter alguma intimidade.

De tal forma que, quando Vitória faleceu, o seu filho, Bertie, o Príncipe de Gales, que viria a ser Henrique VIII (no filme interpretado por Eddie Izzard) mandou destruir tudo o que fizesse referência a Karim. Só que, recentemente, em 2010, a família de Karim revelou um diário seu mantido em segredo por mais de um século. Foi então a partir destes documentos, e em particular do livro que o autor Shrabani Basu escreveu sobre a matéria, depois convertido no guião irresistível de Lee Hall (autor também de Billy Elliot), que Stephen Frears devolveu sob uma real comédia um assunto que correria o perigo de se revelar bem mais aborrecido.

O encontro com a dama Judi Dench ocorreu durante o festival de Veneza, no Hotel Cipriani, na pequena ilha de Giudecca, ao lardo de São Marco.

Judi Dench e Ali Fazal, em Vitoria & Abdul

Como encara o regresso a Rainha Vitória, uma personagem que já interpretou duas vezes?

Atenção, é a mesma pessoa, mas não a mesma personagem. Existe uma grande diferença, pois agora temos um elemento novo que ninguém conhecia e que nos dá essa possibilidade de explorar e compreender. Até por eu ter a mesma idade que ela.

É verdade o que dizem que a Vitória terá tido uma relação sexual com o Abdul?

Ninguém sabe isso. Mas é fascinante pesquisar tudo aquilo que se diz sobre a matéria. Uma das coisas que percebi é que quando viajavam juntos ela costumava verificar todos os preparativos. Há até quem diga que eles chegaram mesmo a casar, embora não possamos ter a certeza.

Acha que este foi então um amor puramente platónico?

Veja bem, ela conhece este tipo bem-parecido, numa das alturas mais difíceis da sua, em que lhe diziam o que tinha de fazer, quais eram os seus compromissos. E, e repente, algo diferente acontece na sua vida.

Mesmo assim, algo acordou nela, não acha?

Talvez por isso tenha ficado tão chocada quando soube que ele era casado. Acho que o aspeto sexual terá sido muito lateral, apesar de ter ficado abalada quando percebeu que ele não era solteiro. Algo que consigo perceber muito bem.

O que a levou a trabalhar de novo com o Stephen, depois de Filomena, um filme bem mais sério do que este?

Sim, esta é a quinta vez que trabalho com ele. Não sei se teve a oportunidade de falar com ele, até porque ele não fala, é monossilábico. Às vezes no final de um plano ele apenas me perguntava: “queres fazer outra vez?” Isso significa que quer que eu repita a cena. No entanto, é bom ter este tipo de relacionamento monossilábico, porque significa que nos entendemos muito bem. Não é necessário.

Apesar de ter a sua agenda muito carregada ainda lhe dá gosto participar em cada novo trabalho?

Claro que sim. Eu adoro o que faço. Tenho muita sorte em ser daquelas pessoas que adora o que faz.

Agradava-lhe ser contratada para um papel romântico

Eu nunca pediria uma personagem, mas tenho a certeza de que não me chamariam para um papel romântico. Espero apenas as migalhas que me possam dar.

Foi sempre assim? Há quem diga que é a melhor atriz do planeta?

Claro que sim. Na noite de estreia da Comedy of Errors, o Trevor Nunn (autor da composição deste musical) veio ao meu camarim desejar-me boa sorte e perguntou-me porque chorava em cada novo trabalho. Eu respondi-lhe que temia que fosse o único trabalho que receberia. Isso é mesmo verdade. Fico desesperada. Mas adoro, claro. É o meu emprego, é o que adoro, o teatro. O cinema foi uma espécie de acontecimento furtuito.

Sentiu-se deslocada nessa nova experiência?

Na verdade, não sabia nada disso. E não sabia o que não poderia fazer, porque há coisas no cinema que não podemos fazer. A minha paixão era Shakespeare, e continua a ser. É o que gosto de fazer. O que mais me apetece é sair desta porta e fazer… Macbeth, por exemplo. Acho que poderia fazer todas as partes do sonho. Há muitas peças que poderia fazer.

Este ano participou em diversos filmes, A Febre das Tulipas, Vitoria & Abdul e Um Crime do Expresso do Oriente. De onde lhe vem toda essa energia?

Acho que essa energia é algo hereditário. Os meus pais também a tinham. Acho que tive sorte pois foi algo com que nasci. Se não a tivesse, não sei se a conseguiria ir buscar. No entanto, o que mais gosto é de Shakespeare. De todos os papéis, femininos ou masculinos.

Lembra-se da excitação que sentiu quando recebeu os primeiros papéis? Como era a Judi Dench nessa altura?

Lembro-me perfeitamente. Estava a terminar a escola de arte dramática e pediram-me para ir ao Old Vic e ir encontrar-me com o (encenador) Michael Benthall. Depois de me ver fazer qualquer coisa, disse-me assim “foi correr um risco enorme, mas vou dar-lhe o papel de Ofélia no Hamlet. Foi o meu primeiro papel no teatro.

Que idade tinha nessa altura?

Tinha 22 anos. Foi daí que aprendi.

Tem alguma personagem favorita de Shakespeare?

Adorei fazer de Cleópatra com o Antony Hopkings, no The National (em 1987). Adorei porque quando fui contratada as pessoas foram muito rudes porque não me viam nesse papel. Mas isso deu-me imensa energia. Foi também nessa altura que conheci o Tim Pigott-Smith, que faz de Sir Henry Ponsonby neste filme, que se tornou num grande amigo meu. Nessa peça era o César Octávio. Fomos amigos durante todos esses anos. Entretanto fez este filme e estava prestes a estrear a peça A Morte de um Caixeiro Viajante quando morreu de repente (em Abril passado). Foi algo dramático.

Trabalhou recentemente com o Kenneth Branahgh no Theatre Live.

Sim, fiz o Winter’s Tale.

Vai voltar a trabalhar com ele?

Acabei de fazer com ele o filme Crime do Expresso do Oriente.

Referia-me ao teatro.

No teatro não. Mas a esse propósito aconteceu uma coisa que é absolutamente verdade. No final de Winter’s Tale, ele veio ao meu camarim com um computador e perguntou-me: “Jude estarias interessada…” E eu disse: “sim, estou!” “Mas eu ainda não disse…”, continuou. “Mas estou interessada”, respondi de imediato sem lhe dar tempo de dizer. Foi assim que aconteceu… (risos).

A propósito destas personagens da realeza que interpretou, qual é a opinião que tem deles? No fundo, qual é a sua opinião sobre a monarquia?

Estou muito satisfeita por termos uma monarquia. Embora seja um trabalho que não possam escolher pois tudo fica imediatamente decidido. Nesse sentido, é um pouco como o de uma atriz em que parte da nossa vida fica também determinada. Eu sinto-me como os primeiros tempos da Vitória em que tudo na sua vida estava programado. Por isso, estou ansiosa por daqui a umas semanas ter finalmente alguns dias em que poderei não fazer absolutamente nada. Embora no caso deles isso talvez não seja possível. Mas tenho uma grande admiração pela instituição.

 

 

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