Outubro 20, 2020

San Sebastian: The Disaster Artist vence Concha de Ouro – O pior filme de sempre transformado em objeto de culto

The Disaster Artist – Seleção Oficial – Vencedor da Concha de Ouro

Mark – How was work today?

Johnny – Oh, pretty good. We’ve got a new client at the bank. We’re gonna make a lot of money!

Mark – What client?

Johnny – I cannot tell you. It’s confidential.

Mark – Oh, come on, why not?

Johnny – I can’t. Anyway, how’s your sex life?

(in The Room, de Tommy Wiseau)

Haverá alguma linha que separa o desastre do sucesso? É que se não há, inventa-se para incluir a personagem chamada Tommy Wiseau, o autor do muito bera The Room, um filme feito à base de teimosia, determinação e… muito dinheiro para gastar, mas que após o choque e a gargalhada acabou por gerar um fenómeno de culto. Hollywood gosta disso, um pouco como a réplica à abominável cantora de ópera Florence Foster Jenkins, o ano passado imortalizada por Meryl Streep. Se Meryl foi nomeada aos Óscares, porque carga de água não poderá ser Franco?

The Disaster Artist é então a história do making of de The Room (2003), um filme já considerado como o Citizen Kane dos maus filmes e o seu autor Tommy Wiseau comparado a uma espécie de aprendiz de Ed Wood. Com a particularidade de The Room bater aos pontos Plan Nine From Outter Space (ou Plano 9 do Vampiro Zombie) de Ed Wood. James Franco foi seduzido pelo fenómeno e acabou por adquirir os direitos do livro de Greg Sesteros,  The Disaster Artist, com o subtítulo esclarecedor My Life Inside the Room, The Greatest Bad Movie Ever Made, escrito em parceria com o jornalista Tom Bissell, em que narra a sua amizade com Wiseau. Já se sabe, Franco transfigura-se num impressionante Wiseau e o mano David Franco num competente Sesteros.

Depois da estreia mundial em Toronto, a adaptação de Franco concorreu à Concha de Ouro, na secção competitiva do festival de San Sebastian, e não é que acabou mesmo por ganhar? É o fenómeno de culto a assumir renovadas proporções. Atenta, a Medeia Filmes apresenta na próxima semana no espaço Nimas algumas sessões especiais de The Room, com a presença de Greg Sesteros.

Já depois da sessão em San Sebastian e dos aplausos no final, James Franco haveria de elogiar na conferência de imprensa essa vontade doentia de quem quer triunfar, frisando que apesar de ser um falhanço, quase começo a pensar que foi um sucesso. De resto, o ator-realizador assumiu também que só viu The Room depois de ler livro de Greg, há quatro anos atrás. E assim percebeu que conseguiria de alguma forma entrar na mente de Weiseau, apesar dele preferir ser representado por… Johnny Depp (o mesmo que fez de… Ed Wood). Seja como for, a dinâmica de James e do mano Dave acaba por funcionar na sua aproximação a James Dean, uma espécie de ater ego de Sesteros, algo que David tem em comum, por ter sido uma das primeiras personagens que interpretou.

Para o restante cast, Franco chamou para pequenos papéis alguns dos suspeitos do costume, como o inevitável Seth Rogen, Judd Apatow, Bryan Cranston, Alison Brie, Dharon Stone, Jacki Weaver, Melanie Griffith ou Zac Efron, como parte do cast de The Room ou elementos da equipa técnica. Assim se tenta reproduzir, de forma muito meticulosa diversos planos do filme, a iluminação bera e o design terrível para a réplica. Mesmo quem não viu o original de Wiseau antes do Disaster acabará por compreender bem do que se trata, já que no final, como se fossem outtakes, vemos a sobreposição de diversas cenas onde o mimetismo é perfeito.

Seja como for, o resultado não deixa de ser a celebração do falhanço, da inépcia, mas também de um certo culto em redor de um homem, evidentemente sem grandes noções de cinema, mas com uma necessidade tão grande de ser reconhecido que gastou uma fortuna (aparentemente cerca de seis milhões de dólares, embora um valor nunca confirmado) para concretizar a sua vontade em fazer um melodrama romântico na esteira de Tennessee Williams. Apesar do culto se ficar a dever mais à paródia, justamente por The Room ser tão mau, tão mau, tão mau, que acabou por se converter em festim de sessões da meia-noite. Nesse sentido, James Franco é tão competente no mimetismo de Wiseau como na reprodução das cenas de The Room, mesmo que seja essa colagem a retirar a The Disaster Artist parte da sua frescura.

Apesar de permanecer um mistério como Wiseau terá arranjado os cerca de milhões de dólares para levar avante esta quixotesca teimosia de concretizar na tela a sua visão (valor esse nunca confirmado), o produtor, realizador e protagonista de The Room terá pago para que o filme permanecesse em eibição o tempo mínimo para que pudesse ser considerado para os Óscares da Academia.

Seguramente, como um filme sobre a vontade indómita de seguir os sonhos, The Diaster Artist até serve como confirmação. Ainda que a seriedade do projeto desejado para The Room apenas funcione numa ácida versão de comédia, afinal de contas tão próxima do burlesco. Mas se é isso que funciona, é isso que Hollywood deseja. Será agora, Tommy Wiseau?

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