Outubro 19, 2020

Mãe!: o delírio inconsequente de Aronofsky

Wtf Mr. Aronofsky! Foi essa exclamação que assaltou aqueles que assistiram à primeira exibição do filme em Veneza, na competição para o Leão de Ouro. E logo aí se extremaram as águas, quase que impossibilitando uma visão moderada desta reavaliação sobre a fama, devidamente temperada com arquétipos com alguma sugestão bíblica sempre muito cara a Mr. Aronofsky. Talvez mais interessante de indagar se Mãe! é péssimo ou uma suposta obra-prima, a simples ideia de comentar os mais diversos contornos assume-se como o exercício de retórica argumentativa que acaba por justificar a sua existência. E que mais poderia desejar Mr. Aronofsky diante daquele filme ao qual ninguém poderá ficar indiferente? Pois todos o desejarão ver, para poder comentar até à exaustão.

O problema, dizemos nós, nem será tanto a tal justificação que permitirá ascender esta fita ao Olimpo da 7ª Arte, ou cair no mais profano dos infernos, mas indagar até que ponto estamos ou não em presença de um bom filme. E esse foi o nosso primeiro com o destino fatal com Mãe!, nesta deriva de horror psicológico que puxa alguns dos problemas e dilemas globais, como a fome, a guerra, os refugiados, ou as alterações climáticas, devidamente filtrados pela ideia de amor e sacrifício, lá mais para a segunda parte, a evocar uma celebração que mais parece saída de um quadro de Bosch.

A verdade é que Aronofsky sempre foi capaz do melhor e do pior, quase sempre com a intenção de combinar o filão do cinema experimental com o insólito, a inteligência e a religião. E até mesmo quando os estúdios lhe deram carta branca para recriar os seus sonhos os pesadelos. Desde logo no admirável Pi, em que fundiu a força do dinheiro com a Cabala e a ciência; logo aqui, numa vontade compulsiva de encontrar Deus através de uma fórmula, prosseguindo depois pela utopia psicadélica com que os sonhos da reality tv são digeridos numa dimensão bem próxima do horror, em A Vida Não é Um Sonho. No entanto, também não teve receio de meter o pé na poça quando a sua desmedida ambição o superou. Sobretudo quando navegou nas águas arriscadas da pretensiosa viagem romântica, muito arty farty, de O Último Capítulo. De resto, Aronofsky só saiu deste percurso alucinatório em O Wrestler, seguramente o seu trabalho mais mainstream, embora vencedor do Urso de Ouro em Veneza (o prémio maior que recebeu), e o único sem a cumplicidade do seu diretor de fotografia habitual, Matthew Libatique. Reincidente no bem-sucedido O Cisne Negro ao regressar ao universo do pesadelo algures nos limites do horror, numa espécie de homenagem velada a Red Shoes, de Michael Powell, mas para logo soçobrar com o pateta Noé, ensaiando uma pretensa mitologia do cristianismo embora a acenar mais para os vícios atuais da humanidade.

Percebe-se que a intenção de envolver em Mãe! os dilemas de maternidade da vida e da criação até rimam com o corpo da sua obra, embora o cineasta se envolva numa proposta da qual cedo percebemos que não sabe como sair. A certa altura, a personagem de Jennifer Lopez diz à turba que invadiu a sua casa: you should leave! Só que a resposta da personagem parece ser segredada pelo próprio Darren: but where should i go? Sim, no empenho em nos fornecer matéria para todas as leituras de reinterpretações, Darren remete o cinema para segundo plano, limitando-se ao esboço da casa como centro de tudo – a mãe ou Deus, pouco importa, em que a câmara de Libatique às escassas possibilidades cénicas deste espaço fechado.

No entanto, o problema principal é que, realmente, Aronofsky acaba por ser perder nesta cassa assombrada e mesmo ceder a uma solução, no mínimo duvidosa, para o final. Resta-lhe seguir o caminho do pesadelo inconsequente. De resto na sessão de imprensa a que assistimos em Veneza, os primeiros aplausos foram logo silenciados por um coro de apupos. É claro que isso tem apenas o valor de uma singela manchete, logo aproveitada por muitos. Até porque o excesso desbragado em que resulta o início simpático acaba por conquistar também inúmeros fãs de emoções fortes, excesso e histeria. Nesse sentido, a tal derrapagem pelo horror já entrando no domínio do surreal, fez-nos até lembrar uma gestão de caos tratada de forma bem mais conseguida no Arranha-Céus, do britânico Ben Wheatley, recentemente estreado, e que faz um bom serviço da complicada obra de J.G. Ballard. Digamos que este pesadelo de Aronofsky fica bem aquém.

Não seixa de ser uma pena, porque o início até prometia. Um casal reergue a casa arrasada por um incêndio. Melhor, ela (Jennifer Lawrence com o seu rosto de cera quase se assume como uma imagem da virgem) dedica todo o seu carinho aos primores da bricolage e pintura, enquanto que ele (Bardem) vive a hesitação do writers block. Sem ideias para passar para o papel acaba por negligenciar também esta jovem que não recebe a devida atenção. A vida torna-se bem mais interessante, ou agitada, desde que recebem em casa a visita de um suposto fã do anterior livro do marido. É um Ed Harris num papel que talvez pudesse trocar com Bardem, embora Aronofsky terá apreciado esta inversão, já que se torna mais à vontade na casa dos anfitriões, sobretudo depois de receber também a mulher, num regresso divertido de Michelle Pfeiffer quase a reeditar um papel de bruxa (mas não de Eastwick).

Ainda assim, uma das personagens centrais acaba mesmo por ser a casa. Não será ela a mães de todas estas batalhas? O que parece um corpo com alguma vida – e que nos fez lembrar a bastante razoável animação A casa Fantasma, de Gil Kenan, de 2006, em que o imóvel assume uma dimensão orgânica. Algo semelhante se passa também nesta casa. Começa com os ruídos escutados por Jennifer, pequenas feridas, sangue que escorre pelas paredes, um buraco no chão que parece uma vagina ensanguentada. Enfim.

A partir do momento em que a casa é invadida pela família destes desconhecidos (haverá até um Cain e Abel, interpretado por Domhnall e Brian Gleeson) e depois por sucessivas turbas de gente, para louvar o autor que pariu uma obra-prima e que se converte num deus vivo. É claro que antes desse delírio, a entrada de desconhecidos e a sua ligação à casa até nos fez recordar Buñuel e O Charme Discreto da Burguesia ou mesmo O Anjo Exterminador, só que, bem depressa essa recordação é afastada, com a mesma velocidade em que toma lugar uma certa histeria em estilo videoclip e um final que acaba por ser previsível. Tal como a gravidez de Jennifer, em que a associação a A Semente do Diabo se torna inevitável. O problema é que esta mother! de Mr. Darren Aronofsky apenas pariu um pesadelo de horror. Assim mesmo, sem maiúscula.

 

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