Outubro 30, 2020

Veneza vira virtual: Tsai Ming Liang lidera a revolução VR — mas será isto cinema?

Mas Guillermo Del Toro vai avisando: “O VR é o início de uma nova proposta de sintaxe”

Veneza virou virtual! Pela primeira vez num festival de de cinema tivemos uma competição VR: 22 projetos de realidade virtual, em filmes entre quatro e 55 minutos, que se posicionam como um ponto de referência na nova fronteira das imagens em movimento. Mas será isso cinema? Tsai Ming Liang, talvez o cineasta mais improvável no domínio virtual, ofereceu-nos a sua única visão 360º, enquanto mantinha intacto a sua visão. Quem diria… Já Guillermo Del Toro, o vencedor em Veneza com o Leão de Ouro, por The Shape Of Water, também está confiante.

Paulo Portugal, em Veneza

 

Nos dias que correm, a competição entre os festivais classe-A mostra-se insaciável na exploração de novos terrenos no sempre renovado mundo do cinema. Ainda há poucos meses atrás, Cannes incluiu na sua seleção Oficial filmes em streaming — aqueles que depois de passarem no festival apenas serão vistos num ecrã de televisão. Mas Cannes também mostrou o bem-sucedido filme de realidade virtual de Alejandro González, Carne y Arena. Ainda assim, Veneza antecipou-se o ano passado ao exibir Jesus VR: The Story of Christ, a primeira tentativa de uma longa metragem em neste formato de realidade alternativa.

Um ano mais tarde, na minúscula ilha Lazaretto Vecchio de apenas seis hectares (a dois minutos de barco do Lido) — onde nos séculos XV e XVI foi usada como um leprosário para as vítimas da lepra — mostrava agora as maravilhas do futuro das imagens em renovadas e espaçosas galerias. Foi aqui que passámos uma manhã e uma tarde a tentar estar o mais próximo possível desta realidade virtual.

A ilha dividia-se em Teatro VR, ambientes Stand Up e Instalações. Em cada ambiente as pessoas iam girando as cadeiras e movendo as cabeças, tentando perceber o espaço em que habitavam, em movimentos que em breve se tornarão familiares a um público bem mais vasto. Enquanto vagueávamos por este espaço recordávamos também o passado imaginando um filme de terror ameaçado pelas dezenas de corpos que estarão ainda sepultos naqueles terrenos. Mas chega de ficção; entremos na realidade… na realidade virtual!

Com os enormes Oculus e os auscultadores high-end colocados, tentamos navegar neste novo ambiente. Já se sabe, na experiência VR não podemos andar à nossa vontade — ficamos ou vamos onde vai a câmara. Mas estamos provavelmente apenas a pequenos passos de algo diference. Mas será isso cinema? Provavelmente, não. Será mais uma aliciante experiência audiovisual que nos permite desfrutar de uma visão de 360º sobre o que se passa. Ou seja, vamos tão longe como num palco de teatro. É claro que a tecnologia ainda necessita de ir ainda mais longe para nos dar aquela imagem perfeita—e não, em muitos casos, uma visão pixelizada. E também, um ambiente totalmente isento de tonturas. É daqui que partimos, ok?

O versátil autor malaio-tailandês Tsai Ming Liang trouxe o feeling do slow cinema para o VR nos 55 minutos de The Deserted, um dos filmes da secção competitiva. Poderíamos ficar surpreendidos pelo seu desenvolvimento, mas apenas se esquecermos a sua experiência em instalações videoarte, performances, bem como o teatro e a pintura.

Teremos longos planos sequência sem diálogo—não aqueles de pessoas numa sala de cinema prestes a fechar as portas, como em Goodbye, Dragon Inn (2003), mas de um homem doente com um problema nas costas que trata com electro choques, enquanto a sua mãe defunta cozinha para ele o observa. Da janela deste pequeno quarto observamos ainda uma mulher que caminha pela estrada. E numa outra, temos o ponto de vista do interior de uma enorme banheira em que observamos o protagonista a tomar banho com um peixe enorme e uma mulher imaginária com quem faz amor.

Em suma, este é o cinema de Tsai Ming Liang: os planos longos que nos embrenham num ambiente húmido, algures numa floresta onde chove copiosamente, mas que ao mesmo tempo nos ligam intimamente com as personagens.

The Deserted foi o nosso primeiro contacto VR em Lazaretto Vecchio. Mas não o último. Entrámos no crossover entre a TV e o VR, através da série de ação Gomorra, bem como no mix entre videojogo e aventuras em Snatch VR Heist, ambos baseadas em episódios do pequeno ecrã. Penetrámos na sensação incrível de estar dentro do romance de Paul Auster City of Glass, na medida em que o autor de livros policiais se torna o protagonista de um thriller de animação, em My Name Is Peter Stillman de Lysander Ashton e Leo Warner. E vimos ainda os glaciares a derreter numa visão 360º do mundo Greenland Melting.

A animação de Laurie Anderson e Hsin-Chien Huang La Camera Insabbiata, (The Sandroom) ganhou a atenção de muitos numa instalação que permitia aos participantes o ponto de vista como se voasse através de estruturas de palavras, desenhos e histórias (venceu o prémio de Melhor Experiência VR Experience para Conteúdo Interativo). A sensação de estar dentro de um campo de concentração é recebida em The Last Goodbye, à medida que o sobrevivente do Holocausto Pinchas Gutter recorda o lugar em que a sua mãe e irmã morreram; depois há a excitante experiência do magnífico mundo pós-apocalíptico inundado em Arden’s Wake, de Eugene YK Chung, o grande vencedor do Melhor Filme em VR pelo júri presidido por John Landis e coadjuvado por Céline Sciamma e Ricky Tognazzi.

Eugene Yk Chun, Arden’s Wake

Durante a viagem mais curta de barco de regresso ao Lido, uma vez mais a nossa mente vagueava, tentando imaginar a sensação daqueles que presenciaram as primeiras projeções dos irmãos Lumière no seu Cinematógrafo em 1895 (que recebem nova força pelo fascinante documentário de Thierry Frémaux, em Lumière). Bom, a sensação será até talvez mais do que isso, já que é seguro dizer que estamos já em presença de uma nova linguagem. Mas para aonde vamos? Provavelmente, uma resposta melhorada será dada pela seleção competitiva de VR do próximo ano em Veneza. Ou, como nos disse o vencedor do Leão de Ouro de 2017 Gullermo del Toro told numa entrevista durante o festival, “o cinema tal como o conhecemos irá mudar radicalmente nos próximos cinco, dez anos. O VR é o início de uma nova proposta de sintaxe. Mas não é cinema. É algo diferente. Estou curioso.”

Sim, estamos muito curiosos.

 

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