Outubro 24, 2020

Arranha-Céus: um lugar ao sol para a revolução

Ben Wheatley encena uma luta de classes e o protótipo de um esboço revolucionário numa “inadaptável” versão de um original de J. G. Ballard. Suficientemente ácido e auto-destrutivo para nos retirar qualquer opção de conforto. São os feéricos anos 70, embora vistos à luz de um certo futurismo chic.

Na verdade, é difícil encarar Arranha-Céus como mero entretenimento, até porque se pressente essa intensa inquietação entre os ocupantes de uma imponente e ultra-moderna torre equipada exatamente com o state of the art para proporcionar uma visa exclusiva. Pelo menos foi essa a abordagem de Ballard ao capitalismo galopante vivido no seu tempo e, de certa forma, hoje replicado segundo uma fórmula muito semelhante. Até porque se dúvidas houvessem, seriam dissipadas pelo “momento Margaret Thatcher” que Wheatley deixou lá para o final da fita.

Seja como for, brava é a adaptação de Amy Jump, fiel colaboradora e mulher de Ben, ao aventurar-se nesta odisseia paredes meias com uma autêntica Revolução Francesa em ambiente retro futurista muito seventies. Provavelmente, o termo de comparação mais próximo será mesmo Brazil, de Terry Gillian.

Para não afastar à partida potenciais espetadores, o inconformado cineasta britânico decidiu apostar num cast de estrelas como forma de levar mais longe a visão apocalíptica de Ballard, como o insuspeito galã Tom Hiddleston, a par dos irrecusáveis Jeremy Irons, Sienna Miller (Foxcatcher), Luke Evans (Velocidade Furiosa) ou mesmo Elisabeth Moss (Mad Men).

Robert Laing, ele mesmo Mr. Hiddleston, é um homem habituado a encarar a realidade como ela é, talvez devido às poucas surpresas que lhe transmite a profissão de médico legista. Instalado no 25º andar, suficientemente acima da população, conserva ainda a motivação e o estímulo de poder ainda olhar para cima. Até porque de lá também o olham para ele.

Como Charlotte (Sienna Miller), a vizinha de cima que Laing conhece quando toma banhos de sol em pelota. No topo, e mais perto do sol, vive o arquiteto Royal (Jeremy Irons), autor do desenho de cinco torres encaradas como os dedos de uma mão voltados para cima – como que a segurar o mundo? Naturalmente, já se sabe, uma certa instabilidade – “o edifício ainda não assentou”, justificar-se-á Royal – dará depois lugar a alguma loucura e um caos total. E é aqui precisamente sentimos que Wheatley delira e se entrega, ganhando com as prestações do revolucionário violento Richard Wilder (Luke Evans), a sua mulher Helen (Elisabeth Moss), entre inúmeros outros habitantes, funcionários do supermercado e da limpeza.

Num dos vários climaxes, sentimos mesmo uma versão de S.O.S, dos Abba (são os Portishead), antes de regressar a um lado mais sério e subscrever o que ficará implícito no tal momento Thatcher. No entanto, ficamos com a sensação de que com tanta agitação, parte dessa mensagem se perdeu pelo caminho. Como que se Ben Wheatley estivesse mais empenhado em fazer-nos sentir o tal desconforto. Este é o filme que eu gostaria de ver, garantiu-nos.

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