Victoria & Abdul: Frears apimenta e ironiza este romance real e inter-racial

Frears e Dench recuperam um novo episódio da realeza. Já vimos isto, se bem que a opção do tom picaresco dos diálogos de Lee Hall, acabam por marcar a diferença. O que até surpreende, porque o mais relevante que escreveu foi mesmo Billy Elliot e Cavalo de Guerra. Justifica-se a opção já que a relação de profunda amizade entre a austera e obesa rainha Vitória e um criado indiano que acaba por ser promovido a seu assistente pessoal também se presta a esse tom picaresco. Uma forma de Frears passar ao lado do que poderia ser um pastelão.

Mas não é. E precisamente por esses diálogos inflamados e viperinos que acompanham todo o filme. Do resto já suspeitávamos: que Judi Dench é irrepreensível num novo papel de realeza, e até mesmo num novo encontro com Vitória, depois de Sua Majestade, Mrs. Brown, que fez em 1999, com John Madden, também aqui apoiado numa relação de proximidade com um criado após a morte do marido. Entre esse luto que manteve até à hora da sua morte, talvez mesmo para sublinhar a sua inacessibilidade, desenrola-se este episódio, no mínimo, incómodo, da relação muito favorecida com o criado Abdul Karim, servido aqui pela estrela indiana também em ascensão no ocidente Ali Faizal. No fundo, um romance que foi explorado depois de se terem descoberto algumas certas trocadas por ambos, em que a rainha se expressava em irrepreensível urdu, a escrita muçulmana, e Abdul lhe respondia em inglês..

Esta estranha combinação acontece quando os súbditos indianos do império britânico enviam uma preciosa medalha comemorativa à monarca. Contemplado com a possibilidade de apresentar esta moeda em Inglaterra, o bem-parecido e ambicioso discípulo Abdul acaba por despertar em Vitória um inesperado interesse. Ao quebrar todos os protocolos, o hindu vai subindo na sua rede pessoal até se converter no seu Munshi privado, ou seja, no seu professor ou mentor. O que importa é parecer autêntico, dizem Abdul a propósito do fato de cerimónia que lhe arranjaram para no início para o outro criado que o acompanha.

Mas lá está, é mesmo no humor que esta história é pontuada de forma cuidada. E que envolve uma corte muito comprometida que envolve o seu chefe da casa real (Tim Pigott-Smith, entretanto falecido em abril passado), a baronesa Churchill (Olivia Williams) e memso o Primeiro Ministro Lord Salisbury (Michael Gambon) e até, e sobretudo, o descendente direto ao trono, e futuro rei, Bertie, o Príncipe de Gales (Eddie Izzard). É neste jogo de personagens que o humor contagiante do guião torna este filme num momento de entretenimento surpreendente. Até porque vai desfazendo um potencial racista que opôs estas duas nações. Razão pela qual Frears chegou a referir que este filme até poderia ser um companheiro de A Minha Bela Lavandaria, em 1985, também ele sobre um romance inter-racial. Só que agora sem o elemento gay. Foi precisamente essa expressão que Stephen Frears defendeu na nossa entrevista. É isso mesmo. Nada mais.

Victoria a Abdul estreia em Portugal no dia 28 de setembro.

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