Ryuichi Sakamoto: Coda: a ponte entre a arte e a vida

Numa altura em que plateia da Sala Grande do festival de Veneza aplaudia de pé voltada de costas para o ecrã a entrada do músico multifacetado japonês Ryuichi Sakamoto liamos a notícia da confirmação do mais recente teste nuclear do louco Kim Jong-um. Apesar de desconhecer ainda o conteúdo deste documentário de Stephen Nomura Schible, produtor (O Amor é Um Lugar Estranho) e realizador (Eric Clapton: Sessions for Robert J) nascido em Tóquio, esta notícia acabaria por ser referencial. Desde logo pela profundidade dos temas, em que Sakamoto abordar a notícia do cancro de nível 3 na traqueia, que acabou por superar, ainda que interrompesse  seu processo criativo durante vários meses, o tsunami de Fukushima e a mensagem anti-armamento nuclear. Pelo meio, a genialidade do músico que retoma o trabalho de composição musical após a paragem forçada.

Quase todo o mundo está familiarizado com o autor do tema mítico de Feliz Natal, Mr. Lawrence, o filme que Nagisa Oshima filmou em 1984, com David Bowie e cujo realizador convenceu o músico a participar. No entanto, Sakamoto é ainda o autor da banda sonora de Ravenant, de Iñárritu, o filme em que trabalhava quando foi surpreendido pela doença, Solaris, de Tarkovski, em 1971, e o trabalho mais regular com Bertolucci (O Último Imperador, O Pequeno Buda ou O Céu que Nos Protege). Competente no seu propósito, eficaz na mensagem artística e ética, Nomura Schible compõe um documentário biográfico que não se esgota nos factos e que promete correr o mundo em festivais de cinema.

Sakamoto começa por tocar um piano que tinha sido levado pelas águas em Fukushima. Parece um piano que morreu afogado, diz ao esboçar algumas notas. Passará ainda pelas memórias do 11 de setembro e da recordação desse dia, bem como a redescoberta do convite sonoro nas imagens de Tarkovsky aliado à sua redescoberta do prazer de viver e ainda o seu ativismo anti-nuclear. Fascinantes são ainda as imagens do jovem pianista nos anos 80 já a dominar a composição de musica eletrónica.

Foi precisamente nesta sua reinvenção que procurou a sonoridade do início da humanidade, lá para os lados no norte do Quénia para a combinar com o som dos glaciares o som mais puro que já ouvi. Mesmo sem ter esta originalidade, Ryuichi Sakamoto: Coda funciona muito bem nessa ponte entre a arte e a vida.

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