Human Flow: O ponto de vista de Deus em ultra HD de Ai Weiwei

Everything is art, everything is politics. Assim se chamava uma das derradeiras mega exposições do artista chinês Ai Weiwei. Como a avisar que as suas instalações mostravam uma humanidade que se confrontava com diversos limites políticos. Agora, no documentário Human Flow, exibido na seleção competitiva aqui em Veneza, o artista que começou a filmar os refugiados em Lesbos com um iPhone acabou por gerar uma megalómana produção em que avalia a movimentação dos refugiados. Na conferência de imprensa, explicou que o ponto de partida foi tentar misturar-nos com os refugiados, e também que tinham um um conceito visual, mas depois tornou-se numa viagem criativa.

No final de uma projeção com duas horas e meia de duração, ficamos com a sensação de que este documentário em que percorreu dezenas de países e falou com centenas de pessoas acaba por não nos trazer nada de verdadeiramente novo. A não ser um ponto de vistas largas dado pelo uso intensivo de imagens captadas por drones.

Numa dela, vemos uma imagem do alto em que as pessoas parecem formigas, mas que se tornam maiores à medida que a câmara baixa, até a receberem com entusiasmo. Enfim, uma cena e um efeito estudado, como tantos outros, com o objetivo apenas de sublinhar essa escala. São imagens fortes como essa que sobrevoam campos captando aquilo que não passa do ponto de vista de Deus em ultra HD, pelo menos tal com é entendido no meio dos videojogos em que a personagem tem a capacidade de voar como uma águia imune a tudo.

O que faz então um nome? Com base nessas imagens de iPhone o artista conseguiu fazer um pitching que acabou por movimentar o interesse de diversos produtores e permitir a criação de múltiplas equipas a cobrirem mais de uma vintena de países numa produção de várias centenas de pessoas, incluindo alguns VIP’s como a Princesa Rania da Jordânia. Costumava trabalhar mais de forma individual, explicou aos jornalistas, mas fazer um filme desta escala foi necessária a maquina do cinema. É uma nova experiencia para mim, mas tem sido muito positiva. As pessoas têm essa vontade de comunicar através do cinema, narrar as suas histórias. Por isso estou muito otimista no que estamos a fazer.

Apesar do mundo inteiro ter estado bem atento a tudo o que se passou nos últimos anos e que afectou a Síria, o Afeganistão e o Iraque, bem como a todos os efeitos colaterais da Globalização, não se pode dizer que um documentário ambicioso como este não seja bem-vindo. O problema é que essa escala de grandiosidade devidamente ampliada pelo protagonismo do próprio Weiwei acaba por subtrair algum fôlego a este registo humanitário que se torna algo pesado. Ele até confessa o seu ponto de vantagem: Eu até posso fazer algum barulho, algo que outros não conseguem.

Weiwei bem vai pontuando os diversos momentos com citações de líderes espirituais de várias nacionalidades e épocas, bem como algumas manchetes de jornais, no entanto é a máquina Weiwei que acaba por se instalar. São por exemplo dispensáveis as cenas em que o vemos a consolar uma mulher, supostamente em off, que interrompe um depoimento que fazia de costas voltadas e que se emociona. Ou a selfie que faz com um cartaz a dizer “Weiwei apoia os refugiados”. A sério, Weiwei?

 

 

Sobre Paulo Portugal 351 artigos
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