O cinema de Tsai Ming Liang chega à Realidade Virtual

Tsai Ling Liang, em The Departed

O festival de Veneza leva a dianteira no que diz respeito à realidade virtual. Apesar de não ter sido o primeiro certame a mostrar filmes que necessitam os óculos que ocupam totalmente a visão do espetador, já que Cannes se adiantou a mostrar o projeto do mexicano Alejandro González Iñárritu, Carne & Arena. No entanto, como secção específica, e competitiva, é Veneza que inaugura. Desde logo com mais de uma vintena de títulos que variam entre os 4 e os 55 minutos.

De resto, esta foi mesmo uma proposta assumida pelo Presidente da Biennale, Paolo Baratta e em particular pelo diretor da Mostra de Cinema, Alberto Barbera, que afirmou no seu artigo de apresentação da 74ª edição que tudo o que é virtual é real, adaptando assim a máxima hegeliana em que tudo o que é racional é real.

À partida o tempo limitado para a preview da experiência VR de acesso reservado a jornalistas, na minúscula ilha de Lanzaretto, a escassos dois minutos de barco do Lido, afigurava-se limitada para os projetos mais ambiciosos. Ainda assim, isso mesmo acabou por se revelar decisivo para avançar e ver logo os 55 minutos de The Deserted, de Tsai Ming Liang, o tal realizador dos planos intermináveis. Mas não será esse o desafio? Se Tsai Ming Liang pode fazer, então todos poderão. Será assim? O tempo o dirá.

Da mesma forma, fica aberta a discussão em torno da forma como deve ser entendida esta nova forma de fazer imagens em movimento. Desde logo por se afastar da ideia do espetador fixo no seu ponto e de poder, pelo menos, desfrutar do espaço em redor permitido por uma cadeira giratória. De resto, a pequena plateia de cadeiras disposta para receber os espectadores desta experiência que até aqui era mais do domínio dos videojogos, mas que está a fazer um rápido crossover para o cinema, ou o que se quiser chamar à experiência VR. Até porque algumas das propostas exibidas nesta ilha entram mais do domínio da instalação, em que uma delas, pelo menos, solicita o espanador que se deite numa marquesa para desfrutar dessa experiência.

A experiência revelou-se compensadora, desde logo para perceber por um lado que o sistema de realidade virtual não serve apenas as emoções fortes da ação e efeitos especiais, mas também o cinema mais contemplativo de Liang. Embora tenhamos visto também o excerto preparado sobre a série de tv italiana Suburra, aí sim, dominada pelo ambiente de ação. Por outro lado, verifica-se igualmente que o sistema VR está ainda numa fase em que aguarda pelos desenvolvimentos técnicos para oferecer uma experiência visual mais rigorosa, em que a resolução não evita uma pixelização menos desejada. Finalmente, a ideia de que um excesso de movimentos poderá ainda facilitar algumas tonturas não está totalmente afastada.

A proposta assume o seu cinema fortemente marcado pelo tempo e a observação. Ao estarmos no centro de cada cena, o efeito de procura espacial torna-se regular, se bem que a ação limitada facilite o desfrute. Assim seguimos os diversos momentos de um homem que recupera de problemas físicos nas costas na sua cabana nas montanhas. Um espaço em que acaba por ser visitado por fantasmas, desde logo a sua mãe que cozinha para ele, bem como uma mulher que vive na cabana ao lado e que se entrega a uma cena erótica numa banheira grande e na companhia de um peixe solitário.

Será o VR cinema ou apenas uma variante do cada vez mais complexa espaço multimédia? Uma coisa é certa, não integra seguramente a perspetiva tal qual a entendemos com o desfrute das imagens em movimento num ecrã. Ainda que permita um tipo de sensações novo e de narrativas ainda por explorar. Pela diversidade de propostas e pela apetite que muitos cineastas estão a demonstrar, este é seguramente um passo para uma realidade no mínimo bem excitante.

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