Novembro 23, 2019
insider

Locarno70: Fanny Ardant e Nastassja Kinski num festival de encontros ardentes

Piazza Grande

 Nastassja Kinski reencontra-se com o famoso Cat People, de 1982, na 70ª edição do festival que nos trouxe Harry Dean Stanton, aos 90 anos, no seu novo filme, Lucky, várias décadas depois de ambos terem contracenado em Paris Texas; Fanny Ardant versão transgender procura o filho e Pedro Cabeleira contribui para o imenso calor de Locarno com o seu ousado Verão Danado.

 

Paulo Portugal, em Locarno

Os festivais de cinema são frequentemente locais privilegiados de encontros. Locarno não foge à regra. Neste festival que vai na 70ª edição e é apenas alguns meses mais novo que Cannes, e alguns anitos mais do que o ‘veterano’ de Veneza – fundado em 1932, em pleno ambiente nacionalista de Mussolini (o prémio principal chamou-se Taça Mussolini até aos anos 40) duas divas dominaram: Nastassja Kinski e Fanny Ardant.

Estes expoentes de beleza feminina foram o alvo natural do aplauso das mais de 8 mil pessoas que enchem regularmente as sessões ao livre da Piazza Grande, naquela que é muito possivelmente a mais gloriosa sala de cinema do mundo.

O que sucede então quando Fanny Ardant, um símbolo gigante da beleza que encarnou uma enorme galeria de personagens femininas, decide assumir o seu reverso? A insólita mutação ocorre em Lola Pater, o filme do franco argelino de 52 anos Nadir Moknèche, em cuja história se promove o singular encontro entre um filho que acaba de perder a mãe e decide procurar o pai. Só que o pai Farid, afinal de contas chama-se agora… Lola. É uma Fanny simplesmente ardente que vemos nessa possibilidade de nos deixar entrever uma masculinidade sugerida que confunde o próprio filho.

Nessa mesma noite, Nastassja Kinski passaria pelo palco em que Miguel Gomes e Olivier Assayas já haviam apresentado o júri oficial que irá premiar o próximo Leopardo de Ouro. Isto na edição em que ocorre o mítico encontro das duas versões de Cat People; desde logo, o original A Pantera de Jacques Tourneur, de 1942, cineasta francês com vasta obra rodada nos EUA e alvo de retrospetiva em Locarno, bem como a versão A Felina, de 1982, de Paul Schrader, bem mais conhecida do grande público. É aí que uma Nastassja Kinski de 21 anitos opera uma prestação plena de erotismo e sedução que muitos ainda recordam. Entretanto, a atriz revelou-nos, em entrevista exclusiva (para publicação em breve), a intenção de encontrar-se com Cristiano Ronaldo para concretizar um documentário sobre desportistas.

Harry Dean Stanton, aos 91 anos em ‘Lucky’

A carreira de miss Kinski receberia também uma outra inesperada aproximação com a fantástica prestação de Harry Dean Stanton, com quem Nastassja contracena no mítico Paris Texas, de Wim Wenders. Mesmo aos 91 anos, celebra a imagem do eterno cowboy em Lucky, a obra de estreia de John Carroll Lynch, exibida em competição. Curiosamente, num filme em que vemos também uma das raras aparições como ator de David Lynch (não relacionado com o realizador).

Locarno viu também – e gostou! – do alucinado filme do português Pedro Cabeleira, Verão Danado, rodado quase sem orçamento, sobre as atribulações de um recém-licenciado numa Lisboa psicadélica. Vejamos então como termina este novo encontro de Locarno com o cinema português (o ano passado João Pedro Rodrigues ganhou aqui o prémio de realização com O Ornitólogo). O filme passa em na secção competitiva Cineastas do Presente, dedicado às primeiras e segundas obras.

 

(uma parceria Jornal Sol e www.insider.pt)

 

Sobre Paulo Portugal 811 artigos
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