Outubro 22, 2020

Carros 3: a derrapagem de uma história interessante

Carros 3

Carros 3 era um filme que ninguém estava à espera, fechando o ciclo da carreira do Faísca McQueen. O primeiro filme iniciou a ascensão de McQueen, o segundo manteve, fracamente, o que o final do primeiro propôs, e agora, o terceiro mostra-nos como o protagonista lida com a nova geração de corredores – o que significa o fim da sua liderança nas competições.

Desta vez a história aborda a nova geração de corredores, carros mais velozes e tecnológicos, liderado por Jackson Storm, o que obviamente é bem diferente da geração do Faísca McQueen. Enquanto McQueen realiza os seus treinos numa estrada de terra, onde o personagem ressalta a importância de sujar-se enquanto treina, Storm realiza o mesmo, muito mais veloz e mais eficaz, num aparelho de realidade virtual, que permite apurar com precisão a sua velocidade média.

A proposta do filme é boa, e é verossímil a inserção de tecnologias, considerando o ano em que é lançado, 2017. A nossa realidade de 2017 é bem diferente da realidade de 2009 e 2011, quando o primeiro e o segundo filme, respectivamente, estrearam. Então é interessante observar como o filme tenta ser verdadeiro com a vivência do público no seu ano de lançamento.

Outro ponto interessante é como o filme tenta “pôr os pés no chão”. McQueen é um carro de modelo mais antigo, e é óbvio que ele não vai conseguir atingir uma velocidade suficiente para superar Jackson Storm, um carro mais recente com mais tecnologia. Isto é um ponto bom, que valoriza o filme, mas leva a história para outro caminho. De repente, McQueen torna-se mentor  duma corredora com mais capacidade mecânica para competir com a nova geração.

A ideia é boa, mas a distância entre a intenção e o resultado revelou-se demasiadamente grande. Ou seja, a proposta do filme foi mal realizada. O enredo é indeciso. Ao mesmo tempo que propõe que McQueen precisa superar os novos corredores para manter-se no topo, sugere também que talvez seja a hora dele parar de competir. É confuso, porque o personagem luta por um caminho, mas segue outro que sequer foi cogitado e bem inserido na história.

O erro desta história defeituosa está no facto de propôr uma determinada situação-problema e entregar uma resolução sem ligação nenhuma com o que foi proposto, dando-nos a sensação dum argumento cheio de incoerências. Por um lado, há quem chame este “plot twist” de epifania, dando um sentido mais filosófico, o que podia até mesmo “salvar” o filme. Entretanto, isto sequer funciona, porque não é uma viragem de história bem planeada. O primeiro, o segundo e o terceiro ato não têm ligação entre si. Os princípios básicos de criar uma história com início, meio e fim (conectados) não existem.

É interessante ver os flashbacks, conhecer novos personagens e ansiar pelo fim que McQueen terá – se conseguirá ou não retomar o topo da competição. Mas nada disto é bem realizado e bem escrito, o que deixa uma sensação estranha e confusa sobre o filme. A história em si tem uma execução ingrata.

  • Classificação

Um resumo

Um exemplo de que apenas boas intenções não constroem bons resultados. O filme provou que o seu público estava certo por não esperá-lo ansiosamente, afinal de contas não foi um bom final para a trilogia.

Sobre Ana de Oliveira 36 artigos
Escritora, poeta, jornalista e mais uma data de coisas.

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