Março 18, 2019

Curtas: a força do cinema português continua presente

Gonçalo Almeida, Luís Costa e Paulo Patrício

Falar do Curtas de Vila do Conde é encarar de frente uma das alavancas geradoras do movimento de autores portugueses. Numa altura em que se celebram os 25 anos do festival (iniciado em 1993) são bem visíveis os frutos semeados ao logo dos anos. Não só o formato de curta, por vezes encarado como uma forma subalterna de fazer cinema, afirmou toda a sua pujança, em grande parte pelo trabalho do Curtas em divulgar os melhores trabalhos em formato de menos de uma hora de nomes como Hal Hartley ou Gus Van Sant, bem como Tsai Ming Liang, Apichatpong Weerasethakul ou Aki Kaurismaki, entre tantos outros, como ainda, e talvez de forma mais mais relevante, revelou toda uma nova geração de cineastas lusos que souberam interpretar a especificidade este formato para moldar a sua carreira. Desde logo, o inconformado Edgar Pera, bem como também Sandro Aguilar, João Pedro Rodrigues, Miguel Gomes, entre outros, que arrancaram das suas curtas para afirmar um cinema de forte identidade.

É claro que vinte e cinco anos depois, a evolução do cinema português foi mostrando aquilo que era seu, as suas inquietações e, talvez mais importante, o seu olhar profundamente pessoal. E mesmo se algum experimentalismo nem sempre se concretizou nos melhores filmes, hoje em dia é inegável o amadurecimento do nosso cinema, em particular na curta metragem. Os prémios e as presenças regulares nos mais prestigiados festivais têm provado essa fibra. Talvez por isso, este ano possamos acompanhar uma valiosíssima secção competitiva nacional – aliás, como o fora já na mais recente edição do IndieLisboa -, a superar-se mesmo à menos equilibrada competição internacional.

Das 3 primeiras secções que já vimos, nota-se antes de mais uma certa homogeneidade que vem da própria qualidade dos filmes, das ideias, do cinema nos mais diferentes géneros. Há a surpreendente animação Água Molede Laura Gonçalves e Xá (Alexandra Ramires), presente este ano em Cannes, capaz de fazer essa ponte inesperada entre o documentário e a animação, assente numa vigorosa veia poética e profundamente lusitana, ao abordar a desertificação local das gentes que emigraram servindo-se da fantasia dos caretos e da música popular com um fascinante resultado. Ainda no mesmo género, Surpresa, em que Paulo Patrício aflora o tema complexo de abordar a doença nas crianças, no caso, através de conversas gravadas entre uma mãe e uma filha de três anos de idade, sobre o seu combate para debelar um cancro do rim, conjugando a simplicidade de desenhos e pinturas num registo entre o realismo e a fantasia.

Diferentes abordagens do real são igualmente abordadas por registos alternativos. Seja a narrativa pausada, que deixa entrever a possibilidade de uma longa, de Verão Saturno, de Mónica Lima, em que a insatisfação pessoal abre portas à sedução proibida, seja para o prazo de afirmação pessoal/profissional de Samuel (Jaime Freitas) e da namorada (Joana de Verona) ou da predisposição para um novo avanço amoroso na vida Teresa (Rita Loureiro). No fundo, um jogo subtil de personagens suspensas entre a urgência do fazer e a pausa para sonhar.

A carreira de João Salaviza estará sempre ligada a Vila do Conde, palco onde se afirmou. Trouxe agora a sua nova curta (esteve a concurso em Berlim), Altas Cidades de Ossadas, para superar o abandono civilizacional a que são votadas diversas comunidades no meio da urbe lisboeta. Como que enfeitiçado por esses fantasmas, a Karlão, nascido na Pedreira dos Húngaros,  resta-lhe apenas a identidade do seu rap crioulo. Num registo ainda mais fantasista, Gonçalo Almeida, radicado em Londres, regressa também à secção competitiva do festival com o insólito Thursday Night, um registo inspirado no álbum de Brian Eno com o mesmo nome, embora aqui dominado pela presença de dois cães, Bimbo e Dakota, que cumprem um guião de thriller, permitindo assim ao realizador explanar toda a sua técnica no uso do som, imagem e montagem.

Gabriel Abrantes é talvez um dos melhores exemplos do efeito que o Curtas teve na sua carreira, tendo já trilhado um muito rico percurso com quase duas dezenas de filmes. Em Os Humores Artificiaispresente também este ano na competição em Berlim e vencedor do prémio EFA, prova o alto nível de domínio dos processos produtivos, servindo-se de um certo exotismo cibernético, com um uso singular de efeitos visuais, atravessado por um sofisticado sentido de humor.

Por fim, mas não em último, Luís Costa trouxe ao Curtas o seu terceiro filme, O Homem Eternouma espécie de homenagem ao avô, depois do neto descobrir o enorme acervo que deixara, sob a forma de uma documentação vida feita em Super 8. Ao organizar e dar sentido a estas imagens e formato, percebe-se que Luís Costa descobriu uma inesperada herança cinematográfica.

Sobre Paulo Portugal 733 artigos
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