Outubro 31, 2020

A Missão: qual é a pele que eu habito?

O realizador Walter Hill e o argumentista Denis Hamill escreviam o filme perfeito se não fosse pela marca de Pedro Almodóvar no cinema. É impossível não associar A Missão com A Pele Onde Habito. Este é um dos defeitos que impedem Hill e Hamill de construir um filme com uma temática inesquecível e, no mínimo, original. Quando um realizador já fez desta ideia a sua marca registrada, não há outra opção a não ser tentar realizar o filme da melhor maneira possível – e mesmo assim continuar a um passo atrás de Almodóvar.

Com a inconfundível influência d’A Pele Onde Habito, de Pedro Almodóvar, A Missão conta a história de Frank Kitchen (Michelle Rodriguez) que, ao acordar e descobrir que foi submetido à uma cirurgia de mudança de sexo, procura pelo médico responsável, em busca de vingança.

Então esta é A Missão. Um homem que tornou-se uma mulher, que vai atrás de respostas por tal acontecimento, como se fosse exactamente um castigo. Não dá para negar, ao início, o filme parece sugerir um enredo interessante, no qual Frank tinha de viver na pele duma mulher para perceber as dificuldades impostas na sociedade só por nascer com o sexo feminino. E isto era interessante, uma ideia próxima dum feminismo simples e duma lição de moral que faz-nos refletir, mesmo sabendo que não era essa a ideia que o cartaz e que o trailer propunha.

Entretanto, mais valia assistir a um enredo assim, com alguma reflexão, que fizesse o filme valer à pena ou dar-nos a sensação de dever cumprido, do que ver um filme que começa e termina no mesmo clima, como se nada houvesse. É difícil entrar num hype, num sentimento de torcida pela personagem de Frank Kitchen. Não pelo facto de se tratar dum assassino, um hitman, mas sim pela forma como ele é retratado. Não existiu oportunidade para que o público pudesse se aproximar de Frank. Num minuto Frank é uma personagem secundária, e noutro minuto já é principal. Esta mudança de foco, confusa e desnecessária, é fatal para matar toda e qualquer possibilidade de empatia por Frank. Então, quando o filme definitivamente começa, lá pelos quarenta minutos, já é demasiado tarde para tentar desenvolver Frank Kitchen dentro do enredo.

E as complicações na realização de Walter Hill não param por aí. Ao assisti-lo, é possível concordar com a expressão “menos é mais”. A montagem do filme pretende ser complexa, de forma que se pareça com um quebra-cabeças, que é montado ao longo da história, com as migalhas de informação que é-nos dada a cada diálogo. Ao princípio parece ser uma boa ideia, porque é assim que os grandes filmes acontecem. Porém, é preciso saber o que se está a fazer. Não havia a menor necessidade de complicar a história. Bastava focá-la em Frank, dando espaço de ecrã suficiente para apresentar a personagem, e segui-la de forma cronológica. Não era preciso fazer mil idas e vindas, como se o filme fosse todo picotado. Se Walter Hill tivesse ido pelo caminho “menos é mais”, tinha conseguido contar a história de forma mais limpa, além de criar um clima de suspense que só aproximava mais o público do filme.

Porém há uma coisa interessante para levar d’A Missão. A Doutora, personagem de Sigourney Weaver, prova-nos uma verdade, uma dessas teorias abraçadas pela geração do século 21, de que o género, masculino ou feminino, está na mente e não no corpo. Ou seja, durante o filme vemos Frank Kitchen o tempo inteiro. Nada muda, a não ser o seu corpo. Ter um corpo feminino não faz de Frank menos homem. Ele continua a ser um homem que ama a sua masculinidade, que tem os seus comportamentos brutos e que ama mulheres. A Doutora, de forma didática, prova-nos que o que faz o homem um homem, e a mulher uma mulher, é a mente, e não o que há no meio das pernas.

A Missão é um filme que não perde pela aparente falta de originalidade. Até porque, se pararmos para pensar no conceito de original, nada é totalmente original, e as produções cinematográficas não são diferentes – todas elas têm as suas influências. Com isso, A Missão é um filme que perde pela falta de um tratamento decente com a história. É um filme que, ao princípio, tem uma premissa interessante, mas que, por vezes, se perde. Por querer inovar com a sua forma, nada conveniente, de contar histórias, acaba por confundir ou atrasar a interpretação do espectador. É um tropeço, um defeito, simples, que nem mesmo as boas actuações e a banda sonora conseguiram evitar.

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Sobre Ana de Oliveira 36 artigos
Escritora, poeta, jornalista e mais uma data de coisas.

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