Outubro 29, 2020

Operação David Lynch: bem-vindos ao pesadelo criativo

Não deixa de ser algo paradoxal que os dois primeiros episódios da nova série Twin Peaks, atualmente em exibição no canal TVSéries, tivessem merecido as maiores classificações dos críticos presentes no festival de Cannes. Será este o sinal dos tempos? Pois o que começara com o sinal de escândalo da Netflix, ao vedar à exibição do streaming de dois dos filmes na Seleção Oficial (Okja, de Boon Joon Ho e The Meyerewitz Stories, de Noah Baumbach), concluía com a consagração de um produto televisivo. Era a TV a ganhar ao Cinema em Cannes?

Seja como for, o regresso de David Lynch ao pesadelo no novo Twin Peaks é um dos eventos desta Primavera. De resto, a motivar também a devida atenção dos operadores de cinema. Como a Midas, sempre atenta e oportuna, com a vasta Operação David Lynch, a permitir aos lynchianos colmatar as falhas ou a facilitar aos neófitos uma abordagem com substrato que permita uma maior compreensão destes universos paralelos que insistem em convidar-nos ao pesadelo para redescobrir os vícios e obsessões da little America, afinal de contas o pano de fundo onde este loirinho de uma família feliz suburbana decidiu recusar o american dream e procurar o seu lado mais negro.

O documentário David Lynch – Life Art abrir precisamente esse véu na vida do criador que se estreou nas longas-metragens com o traumático EraserheadNo Céu Tudo é Perfeito. Mas com a vantagem de podermos agora conhecer o valioso acervo das suas curtas, em dois blocos que ultrapassam as três horas. Talvez aqui esteja parte do mistério da criação de DL. Para além disto, a revisão da matéria dada com os incontornáveis Os Últimos Sete Dias de Laura Palmer e Mulholand Drive, em cópias em 4k. Preparados para voltar ao pesadelo?

 

David Lynch – A Vida Arte – No céu tudo é perfeito

É aquele link que precisávamos para conhecer a obra de Lynch. O documentário de Jon Nguyen, Rick Barnes e Olivia Neergaard-Holm, em que o próprio fala da sua vida, da família, do seu mundo perfeito, limpinho, cheio de amor. Talvez seja esta o caminho a seguir antes de enfrentar as curtas.

Lynch senta-se diante de um microfone, acende um cigarro, no seu atelier em Hollywood Hills, e escuta-se: “A primeira vez que pintamos um quadro, ensaiamos ideias, mas o passado acaba por as colorir”. Não será este o prenúncio de um cinema psicanalítico, ou a transe da terapia?

Aparentemente, tudo era perfeito na vida deste menino loiro nascido no Montana e que se mudar depois para Idaho e, e seguida, para Washington. Terão sido os banhos de lama com o amigo da altura, as pinturas, sempre as pinturas a moldar o seu ser? “O meu mundo era demasiado pequeno”, apenas alguns quarteirões, recordará.

Depois, o choque, ao ver uma mulher nua, de pele alva, a sair dos arbustos, com sangue na boca. “Eu queria fazer qualquer coisa, mas era pequeno demais” recorda. Não será este um pesadelo recorrente em toda a sua cinematografia? O corpo belo, a violência presente. “O mundo inteiro estava naqueles dois ou três quarteirões”. Mas, se calhar, nada mais seria como dantes.

À medida que David relata as suas histórias, alguma delas arrepiantes, vamos vendo gravuras, pinturas suas, bem como o espaço do atelier onde vai trabalhando, acompanhado também a sua filha Lula, de não mais de três anos. Percebe-se como era um jovem cuja imaginação funcionava como esponja, absorvendo tudo. Mas também a necessidade da procura do lado negro. Os sonhos, sempre os sonhos. E a vida fora da escola que odiava.

Não se espere um documentário linear que acompanha a carreira de Lynch, mas antes as histórias que David conta sobre a sua vida e criação. Algo que começará com vários home movies, literalmente, já que tinha criado espaços na sua casa para filmar e evolução que antecipará a criação de Eraserhead, “provavelmente, uma das minhas mais gratificantes experiências de sempre”.

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Curtas David Lynch

É este o universo talvez mais rico e criativo de Lynch. Percebe-se a tremenda ligação das imagens à pintura, às artes plásticas, à importância da música e sons para criar um ambiente de permanente inquietação, onde o sangue e as deformações são presença regular. Desde a lengalenga The Alphabet, com a fusão de imagem real e animação, à pequena obra-prima The Grandmother, onde está já todo o cinema de David Lynch, à insólita The Amputee, onde uma mulher vai escrevendo um poema e um enfermeiro (talvez a primeira aparição de David Lynch nos seus filmes) como o enfermeiro que vai tirando as ligaduras das pernas amputadas, que logo nos remete ideias que trabalharia mais tarde, em Eraserhead. Referência ainda ao conjunto infame de curtas de animação Dumbland, em que Lynch passa em revista os tiques ampliados de certos perfis da tal little america que estão perto da animação radical mais recente que encontramos em Family Guy ou American Dad, de Seth MacFarlane.

É todo o lado de experimentação de Lynch que acaba por sintetizar o seu trabalho como pintor com o que vemos em várias curtas. Por exemplo, The Lamp aproxima-se bastante do que é A Vida Arte, já que basicamente vemos Lynch no seu atelier a dar os diferentes passos, escolher e envolver-se com os materiais e as cores, que levam à criação de um candeeiro. Sempre com essa ligação de arte, mistura de imagem real, animação, colagem, música e efeitos sonoros, a procurar dar imagem a sonhos ou pesadelos, ao universo paralelo em que sempre vegetam as suas personagens.

Apesar de desigual, este conjunto de curtas tem a configuração de um pequeno tesouro que urge descobrir. Depois daqui, sim, podemos dizer que conhecemos, verdadeiramente David Lynch.

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Twin Peaks: The Missing Pieces

Uma espécie de extras para edição em DVD do críptico Twin Peaks: Os Últimos Sete Dias de Laura Palmer, a tal falsa prequela para a série exibida entre 1990-91. Por isso mesmo, vale a visita, talvez depois de rever esta nova edição do original, e para confrontar também com a atual série. Desde logo a comparar as personagens – Laura Pakmer (Sheryl Lee), o Agente Cooper (Kyle MacLachlan), Teresa Banks (Pamela Gidley), Leland Palmer (Ray Wise), a frágil mãe de Laura (Grace Zabriskie), Donna (Laura Flynn Boyle), etc, etc.

O problema é o lado inevitavelmente fragmentado deste conjunto de excertos, que se arrisca a ficar deslocado se não existir este conhecimento (ou aggiornamento) prévio. Ainda assim, é reconfortante rever Davie Bowie encarnar Phillip Jeffriess, ou Chris Isaak numa cena de pancada, as idas e vindas de Cooper ao Black Lodge e a encontrar-se com o anãozinho.

Lá está, The Missing Pieces não é em si um filme, são apenas pedaços de algo maior. Para isso, só mesmo a versão mastodôntica que é Twin Peaks: The Entire Mystery.

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Operação David Lynch

(cinema Ideal de 1 a 14 de Junho)

Twin Peaks (2017) Canal TVSéries

Twin Peaks: Os Últimos Sete Dias de Laura Palmer (1992) (4k)

Mullholland Drive (2001) (4k)

David Lynch – A Vida Arte 2016)

Twin Peaks: The Missing Pieces (2014)

Curtas de David Lynch (inédito)

Six Men Getting Sick (1966) 4’

The Alphabet (1968) 4’

The Grandmother (1970) 34’

The Amputee  (1973) 4’

The Cowboy And the Frenchman (1988) 26’

Lumiere (1995) 1’

Dumbland (2002)

  • The Neighbor 3’
  • The Treadmill 4’
  • The Doctor 5’
  • A Friend Visits 4’
  • Get the Sick 4’
  • My Teeth Are Bleeding 4’
  • Uncle Bob 5’
  • Ants 5’

Dynamic: 01 2006

The Darkened Room 12’

Boat 8’

Lamp 23’

Out Yonder: Neighbor Boy 11’

Industrial Soundscape 13’

Bug Crawls 5’

Intervalometer Experiments 19’

Member Questions 19’

Sobre Paulo Portugal 874 artigos
Insider Cinema, festivais, entrevistas e críticas. E algo mais.

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