Outubro 30, 2020

Paula Rego: Histórias & Segredos: a arte é uma arma

Reservada, mas de uma honestidade desarmante. Foi preciso fazer 80 anos para Paula Rego abrir o baú das memórias neste documentário realizado pelo filho, Nick Willing. O resultado é um retrato poderoso e único da artista que sempre usou a arte como arma: quer para atacar temas incómodos como os abortos clandestinos, quer para se defender da depressão que toda a vida a perseguiu.

Sempre foi uma caixa de Pandora. Até para os filhos. “It was brush or baby”, diz a pintora em dada altura em Paula Rego: Histórias & Segredos, que acaba de chegar às salas portuguesas depois de se estrear na BBC.

O filho e realizador do documentário, Nick Willing, admite que a mãe sempre foi um mistério. Numa sessão especial no Cinema Ideal, em Lisboa, Nick revela que sempre se sentiu excluído por não fazer parte do universo artístico dos pais. Sentia-se, a par das irmãs Cassie e Victoria, uma “personagem secundária”. Bem podiam bater à porta, a entrada no estúdio da quinta da família na Ericeira estava interdita ao trio.

Paula Rego e Victor Willing (1928-1988) viviam num mundo só deles. É um dos pontos fulcrais desta longa-metragem. É uma história de amor sem moralismos, desde logo pelo modo como se conheceram. Com uma honestidade desarmante que poderia chocar os mais pudicos, a pintora conta de uma forma quase anedótica a forma como perdeu a virgindade enquanto era aluna na Slade School of Fine Art:

He told me to come into a room and take down my knickers, and I just did it. I was a virgin, so you can imagine the mess that caused. He could have at least hailed me a taxi, not at all. He stayed in there tidying up.

É esta Paula Rego, que com tanta simplicidade fala de uma situação que hoje em dia facilmente poderia ser vista como uma violação, a mesma cujo trabalho exsuda feminismo por todos os poros. Rego é a prova de como a arte pode ser um meio para o ativismo feminista. A sua série sobre o aborto, em 1998 aquando do 1º referendo em Portugal sobre a interrupção voluntária da gravidez (IVG), é mais do que um retrato, é um protesto social. A sua visão crítica sobre a criminalização do aborto ganhou forma na sua série sem título (1998), que chamava a atenção para a clandestinidade a que as mulheres estavam sujeitas para abortar. A pintora admite que esta é até hoje uma das suas melhores obras e uma causa à qual ficou eternamente associada. Jorge Sampaio, no seu testemunho neste documentário, admite que a tomada de posição da artista teve um papel crucial para a vitória do “sim” à despenalização da IVG em 2007.

Não deixando de lutar pelas causas em que acredita, Paula Rego sempre foi muito reservada, deixando que fossem os quadros a falar por si, qual mensagem encriptada para a sua vida. A sua obra, como vamos descobrindo ao longo destes 90 minutos, explora verdades inconvenientes, mas com uma dose de perversidade. “Everything is erotic because the work itself is erotic”, diz no filme.

No seu estúdio, em Londres, há bonecos por todo o lado. Figuras disformes, rostos bizarros e outros adereços. E é impossível não pensar que estamos a entrar no mundo de um génio. É ali que a mente fervilhante de Rego toma forma – quer seja sozinha, quer seja com Lila, a sua assistente e modelo há muitos anos.

Sentada no sofá, sem enfeites, descomplexada – basta ver a franqueza com que conta como pediu à Gulbenkian uma bolsa num momento de dificuldade financeira –, assim é esta mulher, uma das maiores pintoras do séc. XX, afeita a descarregar os seus tormentos nos pincéis. A depressão, por exemplo, que sempre a acompanhou desde pequena, culminou num período especialmente crítico. O resultado? Uma série de auto-retratos que guardou numa gaveta fechada durante anos. Gaveta essa que se abre para a lente do filho.

Com um valor documental indiscutível, o que o filme possa perder em cariz técnico ganha com a intimidade que é ter o filho atrás da câmara. O ambiente familiar coloca o espectador numa situação que o obriga a identificar-se, a criar empatia. Afinal, é só uma conversa entre mãe e filho. A contar histórias. E Paula Rego tem tantas. Desde o tempo da Slade, até aos abortos que fez, passando pelas relações extraconjugais (de ambas as partes), até à deliciosa carta de despedida de Vic: “Trust yourself and you will be your own best friend”, ouvimos Paula Rego ler, comovida, numa das cenas mais fortes desta obra.

Todo sobre mi madre bem podia ser o subtítulo – não fosse Almodóvar ficar aborrecido – deste filme de Nick Villing. Aliado a fotografias e entrevistas de arquivo, o realizador repassa décadas de uma vida carregada de momentos, frustrações e muitas, muitas histórias.

Lograria dizer-se que, neste filme, há uma simbiose perfeita entre o material biográfico e o artístico. Mas quando falamos de Paula Rego, a obra e o artista são dois conceitos indissociáveis, pertencentes ao mesmo universo. Em Paula Rego: Histórias & Segredos, explora-se o mais profundo da artista, o que nunca deu a saber.

A catarse de Rego é bem conhecida. Está nas telas. Esta talvez seja a do filho. E que bom que é que a partilhe connosco.

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