Junho 16, 2019
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Aquarius: as mágoas no corpo de Sonia Braga

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Hoje, trago em meu corpo as mágoas do meu tempo, in Hoje, de Taiguara Chalar da Silva.

Recuperamos e adaptamos parte do texto publicado durante o festival de Cannes, no dia em que o provocante Aquarius provocou uma pequena manifestação política na passadeira vermelha. Aí, a equipa do filme do brasileiro Kléber Mendonça Filho manifestava o desagrado para o eminente impeachment a Dilma Rousseff. Entretanto, horas antes já havíamos degustado essa preciosidade que é Aquarius, o melhor filme da seleção oficial. O filme estreia hoje em Portugal.

Difícil mesmo foi ficarmos imunes à entrada deste filme de nostalgia, enrolados nas ondas da orla marítima do Recife e invadidos pela música do tema Hoje, de Taiguara Chalar da Silva, para nós um desconhecido, mas suficiente para nos alagar o olhar. Um efeito fulminante para nos transmitir toda a nostalgia de um Brasil a vibrar com os ritmos da MPB no final dos anos 70. E isto ainda sem conhecermos a personagem de Carla (será interpretada por Sonia Braga na sua versão atual). Ela que estabelecerá a ponte entre esse passado e o presente com que o Brasil se encontra cercado. Como que infiltrado por térmitas…

Aquarius, de Kléber Mendonça, é nossa minha favorita para a Palma de Ouro. Mesmo que o júri liderado por George Miller não se comova, mais difícil será ignorar Sonia Braga no papel Clara”, assim escrevemos na altura. E assim prosseguimos.

Sim, Cannes está a ferver! Kléber e a sua equipa sobem as marches, a passadeira vermelha, para exporem ao mundo a sua contestação contra o novo governo de Temer. Uma sensação que contrasta com os aplausos colhidos na sessão de imprensa de Aquarius, um dos filmes mais aguardados em Cannes, desde logo por ser do único não ‘filho de Cannes’, a par da alemã Maren Ade, outra favorita da crítica, com Toni Erdmann).

Depois do muito promissor O Som ao Redor, passado integralmente numa rua de Recife, o realizador escolhe agora a orla da cidade no seu magnífico Aquarius onde durante duas horas e vinte minutos acompanhamos a vida emocionante de Clara, uma pernambucana de gema, interpretada com garra por um Sónia Braga de 65 anos, assinalando para já, a melhor interpretação feminina no festival. De longe. Até porque é uma espécie de instantâneo das idiossincrasias e desigualdades do Brasil de hoje.

Clara é uma ex-jornalista especializada em crítica musical, oriunda de uma classe favorecida do Recife, mas que sempre conviveu bem com o lado mais popular. Ela que gosta dos seus discos de vinil, mas que não rejeita o MP3. Não admira por isso que tenha ajudado Kléber, ele próprio um ex-crítico de cinema, a conferir ao filme uma banda sonora com uma fantástica memória musical do Brasil, em que somos surpreendidos com a emoção dada pelos temas de Gilberto Gil, Maria Bethânia ou Roberto Carlos.

O filme começa logo bem, com a imagem a preto e branco da orla da Avenida Boa Viagem e o ritmo disco e sincopado de Another One Bites The Dust, dos Queen, para nos apresentar pela primeira vez Clara, em 1986, ainda aqui interpretada por Bárbara Colen, uma rapariga com o mesmo ar de Sónia Braga, mas dos tempos de Gabriela. Só o cabelo destoa, porque curtíssimo, vamos sebê-lo depois, devido a um cancro da mama curado.

Esta var ser a história desta mulher, desde esse período, meados dos anos 80, mas também a de um edifício de dois andares dos anos 40, que foi sobrevivendo à voragem imobiliária local, ficando assim acantonado como a casinha do famoso filme da Pixar, Up – Altamente. Além de ter sobrevivido um cancro do peito nunca perdeu a alegria de viver. Desde o ambiente familiar dessa época, cuja personagem é interpretada por Bárbara Colen, uma atriz mesmo muito parecida com… Gabriela, a de cravo e canela.

Ultrapassada a nostalgia da primeira parte, passamos a conviver com uma pressão ensurdecedora, da imobiliária e ate mesmo dos filhos, para que a derradeira inquilina do imóvel se desfaça do seu apartamento. Onde a agressividade do empreiteiro promove diversos recursos para afastar a única inquilina do imóvel chegando mesmo a promover orgias nauseabundas no andar de cima, a participação de rituais de seitas religiosas e a uma operação final que deixamos para recordar, pois quase assume o foro de filme de terror. E que é depois devolvido ao emissor. O mais fantástico é que em todo este processo de pressão, Sonia Braga consegue devolver às personagens uma paz zen insuperável. Por isso mesmo dizemos que a Palma de interpretação feminina lhe pertence.

 Kléber avisou que este filme foi idealizado e concretizado bem antes dos tumultos provocados pelo ‘impeachement’, mas percebe-se que, naturalmente, as térmitas já haviam começado a fazer o seu trabalho.

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